As diferenças básicas entre as manifestações de 2013 e os eventos de 2015, ou O que “eles” têm em comum

igor150Em junho de 2013, governos de vários partidos aumentaram tarifas no transporte coletivo. Manifestações eclodiram. Impulsionadas pelo Movimento Passe Livre e outros coletivos pela democratização do transporte público sem as barreiras das tarifas que comprometem orçamentos familiares, limitando a mobilidade, o acesso à cultura, as possibilidades de relações sociais, além da má qualidade do serviço. O alvo era claro – os oligopólios privados que controlam o transporte coletivo. Nas cidades sedes da copa do mundo, cuja rejeição vinha crescendo graças a um amplo debate social promovido por movimentos populares e coletivos pelo direito à cidade, o alvo das manifestações também foi claro – a inversão de prioridades cujos estádios da copa eram símbolo, milionárias obras supérfluas em cidades com infraestruturas urbana e social precárias, investimentos públicos para o lucro privado, remoções de comunidades e outras formas de degradação da vida urbana. A resposta violenta da polícia (sob governos dos diversos partidos) abriu outro flanco na catarse popular de 2013: as liberdades negadas, o controle dos corpos e a violência física como forma de exercício rotineiro do poder, e novos alvos vieram ao foco – a polícia que reprime e produz Amarildos; a mídia elitista e manipuladora que apoia a repressão, sobretudo aquelas empresas que monopolizam as concessões públicas de radiodifusão; os partidos e instituições políticas com seu sistema sequestrador da soberania popular.

Mas 2013 não foi só as manifestações de junho e dos meses seguintes. Estas abriram a caixa de pandora das demandas populares que já estavam em ebulição quando as manifestações estouraram. Vimos então resistências aos despejos aumentarem, acampamentos se espalharem, comunidades se rebelarem contra a violência policial e omissões públicas. Ocorreram também, e já entramos em 2014, greves em diversos setores urbanos, mas também na indústria pesada e civil, muitas delas deflagradas a revelia das direções sindicais.

Foi aí que vimos “eles” se unirem para desqualificar, deslegitimar e combater a ascensão das lutas populares – das suas diferentes posições de poder, todos se sentiram ameaçados. Do pt ao psdb, de “blogueiros” à rede globo, de sindicatos aos banqueiros e empresários, todos reunidos em uma meta: tirar as manifestações contestadoras das ruas em 2014. Do amor à seleção ao exército na rua, da governabilidade “progressista” aos lucros mafiosos, a copa não podia ser contestada, senão seria a desmoralização completa para os “donos” do Brasil, pois o povo estaria a recusar a festa dos lucros e violações que eles convidaram. Assim, de junho de 2013 a junho de 2014 pipocaram lutas, a globo desmoralizada a pedir desculpas pelo passado e obrigada a mudar suas versões do presente, o pt e seus aliados tendo que trabalhar contra o ascenso das lutas sociais após mais de uma década dizendo que dependiam disso pra mudar o Brasil, e a turma “branca” de camisa amarela querendo ir pro estádio sem ser constrangida como no ano anterior, o que aliás era uma exigência da fifa. Armou-se então o maior esquema de repressão militar pós-ditadura e o povo, que não é besta, foi curtir os feriados.

Ufa, finalmente a grande mídia retoma a pauta, finalmente as “pessoas de bem” voltam ao centro da “cena pública”. No andar de cima a sensação de que as coisas voltaram ao normal, do lado de fora do estádio repressão a uns teimosos manifestantes, do lado de dentro as “pessoas de bem” mandando a presidenta tomar no c… E essa é a tônica da novela política brasileira desde então. As ruas de 2013 foram vencidas. Aqueles que estavam assustados com a rebeldia quase diária nas ruas vão eles mesmos pra rua em eventos dominicais, com suas camisas amarelas, sua estética careta, aos brados eufóricos das empresas de comunicação que em 2013/14 hostilizaram e foram hostilizadas, aplaudindo e abraçando uma das polícias mais assassinas do mundo (mais de onze mil mortes por ano), que reprimiu brutalmente os manifestantes de 2013. Em 2013 os manifestantes pararam a cidade pra dizer que ela os pertence, em 2015 param a programação televisiva de domingo pra dizer que a “opinião pública” os pertence.

As manifestações de 2013/14 foram motivadas por reivindicações sociais por direitos e liberdade, os resultados são imensuráveis – quanto as passagens deixaram de aumentar ou passes livres foram implementados? quantas famílias deixaram de ser removidas das suas casas? quantos policiais pensam duas vezes antes de matar um pobre? quanto mudou a visão política de quantas pessoas? quantos médicos a mais?

Em 2015 a motivação não é enfrentar os problemas do Brasil, mas tirar o bode da sala, e deixar claro que o bode é o pt, tirando-o do governo os problemas estão resolvidos, não precisa mudar mais nada no país, ou seja, tem caráter conservador.

Enquanto o pt, e alguns movimentos que desgraçadamente ainda giram na sua órbita, luta pra continuar ser o bode na sala a garantir harmonia social, a burguesia que lucrou com essa harmonia se cansou, principalmente após o povo abrir a caixa de pandora dos conflitos que ameaçam o seu status quo. Mas os conflitos continuam, as ações cotidianas de quem quer mudar o status quo também, e o verdadeiro jogo decisivo se desenrola no dia a dia sem ser televisionado. Por isso disputar se na tv vai prevalecer o amarelo, o azul, o vermelho ou o preto é puro diversionismo político. São noutros espaços, e nos coloridos das pessoas e coletivos diversos, que o futuro germina uma sociedade mais justa e livre.

Igor Moreira Pinto, advogado e membro do Movimento dos Conselhos Populares do Ceará (MCP).

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Abaixo-assinado contra o despejo de famílias haitianas em Porto Alegre

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