O voto evangélico não tem dono

Por Magali do Nascimento Cunha, na Carta Capital

Nestas eleições é possível identificar dois candidatos evangélicos à presidência da República, Marina Silva (Rede) e Cabo Daciolo (Patriotas), e ao menos 26 candidatos ao Senado e sete aos governos estaduais, com vários a vice-governadores.

Para a Câmara dos Deputados e as Assembleias Legislativas, o levantamento é mais difícil, mas o Portal G1 mostrou um total de 491 candidatos, entre os quase sete mil registrados, cujo nome de urna tem títulos religiosos relacionados à cultura evangélica (pastor/pastora, irmão/irmã, missionário/missionária, bispo/bispa, apóstolo, reverendo e presbítero).

Entre os sete candidatos a governadores, há dois que atuaram na bancada evangélica na Câmara. Na disputa ao Senado, há dez com esta vinculação.

Marina Silva, da Assembleia de Deus, não é novidade na disputa. Chegou a ameaçar a polarização PT-PSDB em 2010 e 2014, mas perdeu apoio depois da última disputa. Entre os motivos, concessões a religiosos contrários à inserção da temática dos direitos LGBTI no seu plano de governo, o apoio ao tucano Aécio Neves no segundo turno e ao impeachment de Dilma Rousseff, a defesa acrítica da Operação Lava Jato e o silêncio quanto às parcialidades do Judiciário brasileiro. Em 2018, Marina se coloca como alternativa à polarização esquerda-direita.

O Cabo Daciolo, sem igreja determinada, é novidade. Ganhou destaque no primeiro debate entre candidatos promovido pela Rede Bandeirantes como um franco atirador. Esta era a sua postura no período em que atuou como deputado federal, eleito pelo PSOL/RJ.

Sua proposta de emenda para alterar o artigo 1º da Constituição Federal, declarando que “todo poder emana de Deus” e não “do povo”, rendeu-lhe a expulsão do partido. Ele ficou por muito tempo avulso até se filiar ao Patriotas.

No debate da Band, Daciolo revelou buscar o mesmo público de Jair Bolsonaro e foi um dos assuntos mais comentados nas redes. Anda sempre com uma Bíblia e usa termos do jargão evangélico para criticar a velha política e a corrupção, evoca Deus e os valores da família tradicional, defende o voto impresso.

O cabo ganhou a simpatia de evangélicos por supostamente ser autêntico, ridicularizado como muitos profetas bíblicos que diziam “verdades”.

Bolsonaro não é evangélico, mas em 2013 passou a construiu alianças com o segmento na Câmara Federal e assumir discursos da moralidade religiosa. Transferiu-se para o PSC, do Pastor Everaldo, que o batizou nas águas do Rio Jordão, em Israel.

A indefinição da candidatura à Presidência pelo PSC o levou ao PSL. Seus mais fortes aliados, o deputado Marco Feliciano (Podemos/SP) e o senador Magno Malta (PRB/ES), recusaram a vice-presidência na chapa, mas se mantêm como fiéis soldados na campanha, ao lado de outros dois fortes apoiadores, o pastor Silas Malafaia e o bispo Robson Rodovalho.

Segundo uma pesquisa, Bolsonaro teria a preferência dos evangélicos. Uma tipologia confusa e imprecisa mostra: 25% entre pentecostais, 28% entre os batistas, 31% de protestantes, neopentecostais e outras vertentes, contra, respectivamente, 24%, 22% e 26% do ex-presidente Lula.

Marina Silva teria 13%, entre pentecostais e 7% entre protestantes, neopentecostais e outras vertentes. Geraldo Alckmin teria 13% da preferência dos batistas e Ciro Gomes, 6% do terceiro agrupamento. Outra pesquisa, do Instituto Datafolha, de junho, mostra um apoio menor de evangélicos a Bolsonaro: 17% contra 28% do ex-presidente Lula.

É fato que o apoio a Bolsonaro pode ser explicado pelo alinhamento da formação conservadora de muitos grupos evangélicos com as propostas do político. Em entrevista à Folha de S.Paulo, um pastor pentecostal avaliou, porém, que ao mesmo tempo em que Bolsonaro atrai pode também repelir eleitores, por conta do extremismo do seu discurso.

Um pastor batista tem a mesma avaliação e indica que muitos evangélicos veem em Geraldo Alckmin, um católico da Opus Dei, elementos muito mais equilibrados e próximos aos valores evangélicos, e acrescenta que o discurso de Bolsonaro afasta evangélicos humanistas e pacifistas.

É esta diversidade que torna possível a articulação de grupos como “Evangélicos pela Justiça”, que apoia a candidatura do ex-presidente Lula, e “Evangélicos com Boulos e Sonia”.

E faz com que Marina Silva se reúna com apoiadores presbiterianos, batistas e luteranos, entre eles nomes destacados no cenário evangélico. Revele pelas mídias sociais um significativo número de apoiadores de Ciro Gomes e aqueles que acreditam ser o Cabo Daciolo um novo profeta.

E torne possível que evangélicos de todo o Brasil se candidatem por partidos classicamente alinhados com a direita, mas, ao mesmo tempo, estejam nos quadros do PT, do PCdoB, do PSOL, entre outros identificados com as esquerdas.

Todo e qualquer discurso de líderes religiosos ou dos produtores de notícias que apresente os evangélicos como um segmento homogêneo, que apoie este ou aquele candidato, deve ser questionado, pois representa a instrumentalização da religião em prol de interesses de determinado grupo.

Os evangélicos deixaram de ser minoria invisível no Brasil, alcançaram visibilidade pública, predominante, mas não exclusivamente conservadora. Isto chama a um amplo debate público para além dos espaços religiosos, por isso, outros balanços virão neste espaço.

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