“Todos seremos, mas além da linguagem, latino-americanos caribenhos”

Por Mónica Riet, Coordendara Pela Retirada das Tropas do Haiti, do Uruguai. e-mail de contato: elindiosepee@gmail.com

A presença das tropas MINUSTAH irrompem em 2004 no Haiti como extensão de uma nova intervenção militar imperial e um golpe de estado que desconhece a soberania do povo haitiano. Representa um novo e doloroso retrocesso na luta por sua independência.

O novo desenho de intervenção com tropas latino-americanas (algumas dos governos “progressistas”) como um disfarce de conteúdo humanitário e de cooperação fica escancarado em sua autêntica natureza com os massacres da população civil em Cité Soleil entre 2005 e 2007, em resposta à resistência popular ao Golpe de Estado, com a repressão a manifestações de caráter reivindicativo como aumentos salariais e o amplo caso de violações e tráfico de crianças e jovens que traumatizam e mantêm a população mais desamparada na insegurança.

Diante da tragédia do terremoto de 12 de janeiro de 2010, a Minustah não atua no resgate de sobreviventes, e 6 meses depois as tropas do Nepal – integrantes da Minustah – introduzem a epidemia do cólera.

Todos os estudos científicos realizados demonstraram, por contrapartida, a responsabilidade e cumplicidade da ONU e dos governos envolvidos com a Minustah, quando da morte de 9.000 pessoas e outras 700.000 pessoas são afetadas pela doença por causa da não assistência a uma população de extrema pobreza, vulnerável pela falta de serviços básicos e os efeitos devastadores do terremoto. A intervenção solidária dos médicos cubanos, rápida e eficaz, prova quantas vidas poderiam ter sido salvas e continuado sido salvas a ONU tivesse a real intenção de fazê-lo.

O não reconhecimento da ONU de sua responsabilidade na introdução do cólera (fato comprovado cientificamente) e a não implementação do protocolo sanitário para a detenção da epidemia, se refugiando em sua incapacidade financeira e em uma suposta imunidade de seus membros, representam uma confissão de parte, de um fato criminoso que toma proporções de um genocídio no tribunal da consciência dos povos do mundo, onde se consegue transpassar a barreira da desinformação global.

A repressão do movimento popular em todas suas manifestações colabora com a manutenção de um regime de trabalho escravo, onde o nível de exploração não permite, em muitos casos, a reprodução da mão de obra. Isto também é um genocídio com um componente ideológico racista e imperial, ao qual se somam o abuso e todo tipo de humilhações a uma população fortemente afetada pela fome.

Os danos moral e psicológico infringidos com ferramentas de submissão como a violação sexual e a prostituição de crianças, jovens e adultos praticados de maneira sistemática, são incalculáveis. E constitui outro crime de lesa humanidade.

São, então, 11 anos de flagelo agregado a um povo já castigado por 100 anos de ocupação e reconolonização sob distintas formas pelos Estados Unidos.

O único “aporte” da MINUSTAH amplamente reconhecido é a formação de um corpo policial aguerrido e equipado como polícia militar para enfrentar o movimentos social.

A MINUSTAH, à luz dos fatos, foi concebida para isso. Seu fracasso acompanha a deslegitimação do falso processo de “reinstitucionalização” organizando eleições manipuladas e fraudulentas, de onde surgem um poder ditatorial neoduvalierista como é o caso de Michel Martelly.

A eliminação dos espaços de participação popular mais importantes e todos os ataques à liberdade de expressão, associação, e ao funcionamento normal da justiça, tensionam a pressão social, provocam conflitos e um nível de confronto social superior quando o objeetivo de toda essa montagem imperial era e é um modelo de dominiação mais estável que duradoura. O povo haitiano golpeado e dolorido se ergueu novamente, aumentando sua consciência, organização e mobilização frente ao atropelo imperial terceirizado na MINUSTAH e este novo recorede de liberdades com um novo regimem duvalierista.

O imperialismo norte-americano mantém, há decadas, várias guerras de baixa intensidade na região, como o bloqueio e as permanentes agressões a Cuba. Outras mais ocultas, invisibilizadas com governos de fachada aparentemente democráticos como México, Colômbia, Guatemala, Paraguai, Honduras, Haiti. Existe muito horror e sangue derramado em todos estes territórios.

Toda a fronteira sul do Estados Unidos sofre de uma militarização crescente justificada no narcotráfico, no crime organizado ou no terrorismo. Mas trata-se de contenção social, controle territorial e roubo. A relação de vizinhos com o império os condena a um controle geoestratégico implacável. A ocupação militar do Haiti é parte deste dispositivo. O desenvolvimento e a continuidade da revolução bolivariana na Venezuela liderada por Cháves impactam fortemente em uma nova estratégia de unidade latino-americana e caribenha.

Se criam novos vínculos de cooperação e complementação entre os povos e governos com o aporte do Petrocaribe, com as políticas da ALBA, de Cuba em matéria de educação e saúde. A constituição da ALBA, Unasul, Petrocaribe e a Celac geram uma nova correlação de forças no continente frente aos Estados Unidos.

Contudo, algumas contradições aparecem em prejuízo do povo haitiano quando em sua primeira declaração, a Celac atribui aos continentes militares da MINUSTAH uma condição de contribuição ou colaboração em “segurança”. Está demonstrado que a MINUSTAH só aportou segurança às classes dominantes, ao império e ao seu fantoche da vez, Martelly, não parando nem por um momento de avassalar o povo humilde. O Haiti, do mesmo modo que a Venezuela, não é uma ameaça para ninguém, sua ocupação é ilegal, já que nunca houve uma guerra que a justificasse.

A crise financeira que estala em 2008 nos EUA, começando a declinar sua hegemonia econômca frente a outras potências como a China, o conduziu a uma ofensiva militar em escala planetária, que mais recentemente se focalizou sobre nossa América-Caribe. A Venezuela sofre, em fevereiro de 2015, a quarta intenção de golpe de estado e a intenção do assassinato do segundo presidente deste processo (Hugo Chávez e, agora, Nicolás Maduro).

Mudança de estratégia imperial com relação a Cuba, fragilizada por sua economia bloqueada e estacionada, com o objetivo de recuperá-la por outras vias.

Diálogos de Paz na Colômbia na perspectiva do desarmamento e ocupação militar por parte do estado, dos territórios sob controle das FARC-EP há décadas, entre eles uma vasta zona de fronteira em torno da Venezuela e Equador.

A militarização impulsionada pelos EUA avança com novas bases no Panamá, Honduras, Paraguai, América Central, Peru, onde recentemente desembarcaram contigentes de soldados…e um novo plano de golpe na Venezuela, sem dúvida seu principal objetivo, por trás do qual o resto da América ficaria desguarnecido. Tudo parece indicar que para o Pentágono chegou a hora de largar “quintal”.

No planto imperial de recolonização dos territórios da América Latina e Caribe para usar seus recursos naturais, a Venezuela é somente a cabeça do iceberg, mas sem dúvida o osso mais duro de roer. Há todo o apoio popular do projeto e estratégia delineada e praticada consquentemente por Hugo Chávez Frías de “revolução pacífica porém armada”, com a união cívico-militar e a participação popular ativa e armada na defesa da pátria.

Todo um xadrez onde o império não joga só. Chávez e Fidel se ocuparam de promover a tarefa histórica de construção de novas alianças políticas, econômicas e militares sul-sul em nosso continente e no mundo, aproximando Irã, Rússia, China, os países árabes, Venezuela, ALBA e a outros países do continente, contribuindo também para unir os países produtores de petróleo na OPEP; em outro grupo, uniu os países não alinhados para geração de um mundo multipolar, para promover uma estatégia de Pas que freia a estratégia colonial e beligerante dos Estados Unidos, OTAN e Israel, com seus aliados periféricos

A presença de tropas de ocupação no Haiti tem estado a serviço da estratégia norte-americana, onde também se ensaia um modelo de exploração de mão de obra e de dominação colonial que, acreditam, lhes permitiria a escala ampliada, competir com a indústria asiática.

O caso uruguaio merece uma menção especial, já que o presidente José Mujica, que governou de 1º de março de 2010 até 28 de fevereiro de 2015, foi o único mandatário daqueles que têm tropas da MINUSTAH, que denunciou em seu critério pessoal, o caráter ditatorial do governo de Martelly a partir da não convocatória de nenhuma das eleições instituídas pela Constitiuição haitina de 1987 durante 3 anos. No dia 29 de outubro de 2013, o presidente Mujica falou publicamente que se em fevereiro de 2014 estas eleições não tivessem organizadas, seu governo retiraria todas as tropas do Haiti, pois não se transformaria em “guarda pretoriana” de um governo ditatorial ou por fota do estado de direito. Por sua vez, o chanceler Almagro manifestou que o Uruguai haiva sofrido uma ditadura imposta por um presidente eltio, que dissolveu as câmaras em 1973 para se transformar em ditador junto às Forças Armadas, portanto não podiam apoiar Michel Martelly, que estava repetindo o mesmo mecanismo de um autogolpe de estado.

Fevereiro de 2014 passou e a MINUSTAH continuou reprimindo com maior violência as massivas manifestações populares que em todo o país exigiam a renúncia de Martelly, ocasionando mortos e feridos de balas e gases ao longo de todo esse ano.

Fevereiro de 2015 chegou e Martelly continuou sem convocar eleições, parando o mandato dos legisladores eleitos.

O presidente Mujica não falou mais de se retirar da MINUSTAH, apesar do regime despótico neoduvalierista que Martelly implantou com designações diretas, repressão, presos políticos, corrupção de todo tipo. O chanceler uruguaio Almagro foi nomeado Secretário Geral da OEA e as tropas uruguaias continuam até hoje cumprindo sue papel de “guardas pretorianas” que antes diziam que não deviam ser. Estes governantes finalmente seguiram a rota demarcada pela ONU e pelo governo norte-americano. As organizações sociais uruguaias que representam centenas de milhares de trabalhadores, estudantes, camponeses, trabalhadores rurais, mulheres, repudiaram desde o primeiro dia a ocupação do Haiti e têm vergonha das decisões de seus governantes, que continuam ultrajando e violando o direito de autodeterminação do povo haitiano assim como seus Direitos Humanos mais elementais.

Até 2004, a realidade haitiana era ignorada e invisibilizada pela prevalência de uma construção midiática imperial sobre um Haiti que não existe, e o ocultamento do que é a MINUSTAH paradoxalmente provocou a aproximação dos povos latino-americanos ao movimento social haitiano, que tomou a iniciativa de entrar em contato com nossos sindicatos e organizações para tornar pública sua realidade e solicitar nosso compromisso em uma campanha pela retira das tropas de nossos países do Haiti.

É esta estratégia do movimento popular haitiano que  nos alenta em uma campanha de informação e denúncia do papel que cumprem nossas tropas e da história heróica de resistência que alumbrou a primeira independência em solos latino-americanos-caribenhos e continua até hoje.

Não há nada mais potente que a verdade e nada mais comovente que a exibição das imensas injustiças que o povo haitiano tem tido que sofrer por desafiar e derrotar muito cedo o sistema de opressão mais cruel: a escravidão.

Nosso principal papel debe ser, em nosso entender, o trabalho sistemático de informação e denúncia de controle e saque imperial no Haiti, a resignificação do papel da Revolução Haitiana no passado, presente e futuro da sociedade que sonhamos. Situar o Haiti dentro do plano de militarização norte-americanos do Caribe e América Latina em sua nova ofensiva fascista. Incluir nas plataformas reivindicativas de nossos movimentos sociais o respeito à autodeterminação do Haiti.

Exigir de nossos governos o reconhecimento diplomático e político do Haiti como o primeiro país da região que selou com sangue a primeira independência e seu internacionalismo para com a luta do resto do continente latino-americano, nação que soube se autogovernar abolindo a escravidão e tem que ser respeitada em sua independência e soberania como pretendemos que faça com a nossa.

–  Deveríamos colocar como objetivo no marco da Unasul, Celac, o tema da independência do Haiti, hoje sob ocupação militar neocolonial, no mesmo nível das Malvinas Argentinas e a independência de Porto Rico. O contrário implica uma cumplicidade com o dirscurso imperial e seus fantoches como é hoje o caso o ditador Michel Martelly.

– Apoiar a coampanha pela reparações e indenizações pela dívida da independência, o saque colonial, a destruição ambiental, os crimes cometidos através das doenças como o cólera e as outras.

– Unir o Haiti ao reclamo de todas as ilhas caribenhas pela escravidão.

– Visibilizar a luta incansável do povo haitiano em condições absolutamente assimétricas, como exemplo do caminho emancipador que todos devemos empreender.

O trabalho nessas bases nos bairros, oficinas, centros de estudos, nas organizações populares, o corpo a corpo nas ruas, nas rádios comerciais e comunitárias, programas televisivos, na mobilização (antecedida deste trabalho), na ruas em frente às autoridades de governos, frente às instituições militares implicadas.

Vossa história resume toda a crueldade de que é capaz o sistema de exploração capitalista no qual vivemos até hoje. Nos transmite valor e esperança, o potencial criativo, espiritual, cultural e a combatividade excepcional de um povo tão longamente vitimizado pelo racismo e pelos interesses imperiais de todas as horas. Só falta poder harmonizar a união de todos os oprimidos para recriar o milagre de vosso pais libertadores de onde herdam sua coragem e determinação.

Nos encontraremos na batalha, impulsionados por vosso exemplo.

Todos seremos, mas além da linguagem, latino-americanos caribenhos.

Que vivam a autodeterminação e a soberania de todos nossos povos, e a construção solidária de outro mundo, à altura de nossos sonhos!

– Artigo enviado pelo Jubileu Sul/Américas

A seguir

"Somos de um mesmo povo que ama, luta, e que sonha"

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