Honduras: 10 anos do golpe | Entrevista especial com Zulma Larin

Zulma Larin é coordenadora coordenadora da Rede de Ambientalistas Comunitários de El Salvador (RACDES) e membro da Rede Jubileu Sul /Américas. Na entrevista a seguir concedida à Secretaria da Rede Jubileu Sul Américas, ela fala sobre as implicações dos dez anos do golpe em Honduras. Confira!

Secretaria JS / A: Você considera que o golpe em Honduras produziu mudanças no cenário da região latinoamericana? Quais?
Zulma: 10 anos após o golpe de Estado, há mudanças substanciais na região mesoamericana. Esses cenários mudaram de certa forma para o povo hondurenho. As lutas se tornaram mais difíceis no sentido de que a criminalização dos defensores dos direitos humanos aumentou, a imposição de modelos como experimentos de desenvolvimento se materializou em Honduras como, por exemplo, as cidades modelo. A implementação de programas de Ajuste Estrutural é efetivada tão facilmente que as empresas transnacionais são fortalecidas em sua apropriação dos meios de subsistência e seus investimentos não têm dificuldade em se desenvolver.

A pobreza estrutural continua sendo uma realidade na vida do povo hondurenho antes, durante e depois de 10 anos de golpe, e esse povo continua lutando todos os dias por melhores condições de vida, como todo o povo mesoamericano.

Os problemas da posse da terra pioraram, o que causou múltiplas complicações e uma guerra não declarada entre o regime e os camponeses. O acordo de livre comércio com os Estados Unidos colocou um preço em tudo na agricultura e, com isso, condenou milhões de pessoas à fome. A descrição de que “vivem com menos de dois dólares por dia” está exposta, é o que na realidade significa miséria para este país, onde quatro em cada dez pessoas vivem em extrema pobreza.

Na geopolítica mundial foi uma experiência do imperialismo para potencializar outros golpes na América Latina, como na Venezuela e na Nicarágua. Esses golpes são chamados de golpes suaves dentro do jogo de democracias disfarçadas de boa vontade e fazem as pessoas acreditarem que as democracias de estilo americano deveriam ser receita para todos.

Esses dez anos não aconteceram sem um grande custo para os hondurenhos. Com o golpe consumado, os Estados Unidos ponderaram a destruição dos Estados que consideram párias, e Honduras é um deles. Ao governo golpista de Lobo Sosa veio o assessor, Paul Roemer, como profeta das cidades-modelo (Charter Cities), com a intenção de desmembrar o país em um conglomerado de regiões autônomas, sob gestão particular. Enquanto isso começou uma campanha sem precedentes de privatização, destruição de sindicatos, precarização do emprego, desapropriação de recursos naturais e a proliferação da violência.

Em dez anos, o povo hondurenho já travou muitas batalhas. Teve vitórias eleitorais esmagadoras, que não se conseguiu materializar e, hoje, sua capacidade de mobilização, resistência e luta é formidável. Sem chegar a um ponto ideal, a “questão hondurenha” está longe de ser resolvida em uma eleição, se antes não termina com o golpismo.

Secretaria JS / A: Qual é a relação entre o modelo de imposição de golpes e as condições sociais, políticas e econômicas de seu país?
Zulma: Acredito que estas são receitas para que o imperialismo submeta aos povos que tocam a parte mais frágil que tem a ver com a pobreza e as migrações que os pobres fazem, procurando ter o sonho americano, assim o império as usa para subjugar os governos e fazem experimentos em nossas cidades. A receita é a mesma para toda a Mesoamérica, no entanto, cada país a experimenta de uma maneira diferente.

Para as potências econômicas-europeias, chinesas e norte-americanas, somos uma região geopolítica importante para o movimento de suas mercadorias, bem como para a desapropriação de nossos bens naturais, culturais e econômicos.

Ainda somos laboratórios em nossas regiões para a imposição de programas, modelos e diferentes formas de controlar nossas raízes culturais, de gênero e econômicas para continuar impondo suas receitas e violando a soberania nacional de cada povo, despojando assim as espiritualidades de cada povo da região.

Secretaria JS/A: Qual é o papel das organizações sociais neste cenário?
Zulma: As organizações em suas diferentes expressões estão chamadas a continuar construindo esforços organizacionais na região para defender os ativos estratégicos que ainda temos como patrimônio; água, saúde, segurança e educação, culturas e espiritualidades.

Recuperar nossa herança cultural ancestral como um povo deve ser um compromisso estratégico em nossa região.

A unidade de classe é uma necessidade urgente para fortalecer as lutas na região. Os povos mesoamericanos devem se unir novamente para fortalecer as apostas comuns em prol da vida e da integração de dos povos.

A presente publicação foi elaborada com o apoio financeiro da União Europeia. Seu conteúdo é de responsabilidade exclusiva do Instituto Rede Jubileu Sul Brasil e Rede Jubileu Sul Américas e não necessariamente reflete os pontos de vista da União Europeia.

A seguir

Solidariedade Internacional em defesa dos povos quilombolas de Honduras

Solidariedade Internacional em defesa dos povos quilombolas de Honduras