O golpe na Bolívia e seus reflexos na América Latina | Entrevista com Sandra Quintella

Por Instituto Pacs

A saída de Evo Morales do cargo da presidência da Bolívia, no dia 10 de novembro, decorrente de uma ordem de prisão considerada ilegal por parte da Polícia e das Forças Armadas bolivianas após protestos e denúncias de fraude na votação, foi um golpe cívico e político contra a democracia. Junto com ele, que estava no poder desde 2006, renunciaram também o vice-presidente Álvaro García, a presidente do Senado, Adriana Salvatierra, o vice-presidente do Senado, Rubén Medinacelli, e o titular da Câmara dos Deputados, Víctor Borda.

Bandeira Wiphala, símbolo do Estado Plurinacional Boliviano, que faz referência à organização da sociedade dos povos originários andinos | Foto: Reprodução

Em entrevista, Sandra Quintela, economista, educadora popular, integrante da Coordenação América Latina e Caribe da Rede Jubileu Sul e vice-presidenta do Instituto Pacs, explica o contexto do golpe na Bolívia e de que maneira isso pode afetar o Brasil, além de abordar as semelhanças dos cenários políticos atuais dos países latinoamericanos.

Como você vê a realidade da América Latina hoje?

O que acontece em algum país da América Latina tem reflexo em toda a região. Então, estamos vivendo em 2019, 30 anos das políticas neoliberais mais duras, desde o chamado Consenso de Washington concomitante à queda do Muro de Berlim. São políticas que priorizam os interesses privados e não os públicos, destinando recursos do orçamento público para o capital privado e tirando do social, através dos chamados ajustes fiscais. Nos anos 2000, a América Latina deu uma freada nessas políticas neoliberais , através de um ciclo político que elegeu governos progressistas como Evo Morales na Bolívia, Hugo Chávez na Venezuela, Cristina Kirchner na Argentina e Lula no Brasil. Significou políticas sociais que permitiram um combate às consequências dessas desigualdades na primeira década do século 21. Porém, a gente sofreu um retrocesso nesses últimos anos na Argentina, no Paraguai, no Chile, no Equador, agora na Bolívia e no Brasil. Vivemos uma década de violência sobre a América Latina e Caribe.

Quais são as características contemporâneas de um golpe em pleno 2019? E quais as diferenças e semelhanças dos golpes civis militares empresariais anteriores?

A gente vem acompanhando outros golpes na América Latina e no Caribe, desde 2004, com o golpe no Haiti; 2009, em Honduras; 2012, no Paraguai; 2016, aqui no Brasil; e agora em 2019, na Bolívia. Cada um desses golpes vai apresentando um perfil, uma característica. Esse na Bolívia foi um golpe de outro tipo, com a presença de policiais e dos neopentecostais, o que é uma novidade na região. Já há uma certa instabilidade política na Bolívia desde 2016, em fevereiro, quando foi feito um referendo para questionar a população se concordava ou não numa candidatura pela quarta vez de Evo Morales, o que não é nenhum problema efetivamente. Angela Merkel, por exemplo, é primeira-ministra na Alemanha desde 2005. Foi feito o referendo e ele não deu vitória ao Evo Morales e recorreu ao Supremo Tribunal Eleitoral, que a partir daí sim reconheceu que ele poderia se recandidatar. Iniciou-se um processo de tentativa de desestabilização do governo e com as eleições, a diferença entre ele e o segundo colocado foi muito pequena. O presidente Morales já tinha concordado em convocar o segundo turno e chamar novas eleições, mas isso não foi suficiente. Além disso, nós sabemos que a maior reserva de gás da América Latina está na Bolívia. Então, uma série de fatores que estão por trás do golpe são também os interesses por recursos. Há também nuances muito claras de racismo nas elites brancas bolivianas. Tudo isso caracteriza o golpe na Bolívia. Sempre por trás desses golpes tem um interesse econômico ou de grupos que querem hegemonizar o controle territorial. No caso de Honduras, o golpe foi feito para a introdução do agronegócio em grande escala, grandes plantas energéticas, as hidrelétricas — e por trás disso o assassinato de Berta Cáceres. Aqui no Brasil foram os interesses sobre Petrobras, a indústria do petróleo e do pré-sal, que na minha opinião são fundamentais pra entender o alicerce do golpe de 2016.

E a relação e proximidades entre o contexto conservador na Bolívia e no Brasil?

Temos uma América Latina em ebulição, com Haiti, Panamá, Honduras, Equador, Chile nas ruas… E agora a Bolívia sofreu esse golpe de característica muito violenta. Esse é um país que tem uma maioria de mulheres nos ministérios, no judiciário, no parlamento, nas lideranças comunitárias, nas prefeituras… O primeiro governo que reconhece o governo golpista é o brasileiro, ou seja, há indícios muito fortes da questão ideológica de desestabilizar os governos de centro-esquerda, até porque o projeto político deles é de acabar com a esquerda a qualquer custo. Os reflexos são: a situação se agravar e justificar o endurecimento de repressão e aparatos policiais maiores; um possível apoio militar brasileiro a Bolívia, por conta da fronteira; e um cenário de legitimação cada vez maior nessa realidade de impunidade q vivemos hoje no Brasil. Há indícios de envolvimento do governo brasileiro com o golpe na Bolívia, então é toda uma discussão geopolítica que está em questão. Nós, brasileiros, temos dificuldade de pensar a América Latina como parte orgânica e fundamental do que é a nossa política, história, economia e sociedade nesse contexto mais amplo, já que o Brasil sempre se coloca de forma isolada por causa do seu tamanho, mas as nossas histórias são muito similares.

Como relacionar os processos políticos do campo progressista a nível regional com a liberdade do Lula? Você vê alguma relação?

A saída do Lula mexe no tabuleiro de xadrez que vive a política brasileira. Cada peça que se move, move todo o jogo, implica na estratégia de todo o jogo. A saída do Lula muda essa estratégia. Temos que pensar se isso vai caminhar para uma polarização ainda maior ou para uma ofensiva deles ainda maior, para que a gente possa se organizar também. Foi no mesmo dia a saída do Lula da prisão e a saída do Evo do cargo. Eu não vejo uma relação direta nisso especificamente, eu vejo uma relação direta da reunião do comando militar de manha em Brasília, no dia 10 de novembro, e a tarde a saída do Evo. Em relação ao Lula, como o Bolsonaro aposta na desestabilização, a questão pra refletir é até que ponto essa saída pode contribuir pra esse cenário de polarização.

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