Vinte centavos

Vinte centavos parecem coisa pouca, não mais que um quinto de real. Mas quando o balde está cheio até a borda, basta uma gota de água para transbordar. Ha tempo vem crescendo a indignação: como qualquer fruto, sofre um processo de amadurecimento, até que chega o dia da colheita ou da víndima. Faz lembrar a obra prima do escritor norte-americano John Steinbeck, As Vinhas da Ira, que lhe rendeu o premio Nobel. A fermentação destila a espuma da raiva incontida.

Porém vinte centavos, sempre um quinto de real, tornam-se coisa grande quando representam apenas a ponta de uma revolta oculta e reprimida. Um verdadeiro iceberg que, ao mostrar a cabeça minúscula, esconde o corpo gigantesco nos subterrâneos da sociedade; em seus porões mais pobres, imundos e sórdidos; em seus grotões mais miseráveis e longínquos; em suas periferias marcadas pela pobreza e a exclusão social. Iceberg que, ao mesmo tempo, se nutre e se disfarça por trás das redes sociais. Se o mundo virtual tem reflexos do real, este também pode imitar aquele. Os bate-papos informais podem converter-se, sim, em gestos e ações comprometidas.

Vinte centavos podem se transformar, então, num estopim que deflagra a bomba da rebeldia comprimida, espalhando fogo e estilhaços para todos os lados. Mas também entusiasmo primaveril, raios de um novo amanhecer. A irreverência rebelde semeia o medo e a perplexidade, devido à surpresa, à imediatez e à aparente espontaneidade, mas põe sangue novo em nossas veias atrofiadas, voltando ao encanto do primeiro amor. Um pavio que se acende e que conduz a chama da ira onde a pólvora está pronta para uma explosão múltipla e espetacular, com inúmeras faces e formas de reação, livre e plural, independentemente de cor, raça, povo, sexo, classe, partido, ideologia – ou apesar de tudo isso, e mesmo contra tudo isso.

Num cenário de crise nem sempre bem entendida e de visível mal estar, vinte centavos aparecem como o rabo do rato. Sim, o rato que, na calada da noite ou a plena luz do dia, rói o grande queijo social e econômico, fruto do trabalho de toda a sociedade, de milhões de cabeças, braços e mãos. Rói quase metade do queijo, procurando dissimular sua voracidade insaciável, mas sempre deixa o rabo de fora. No Brasil, o rato tem às vezes nome de leão, de receita federal, ou simplesmente de governo ou Estado. Impostos, taxas, tributos – abertos ou embutidos – eis a parte reservada ao rato (leão). Parte que teoricamente deveria ser revertida aos cidadãos em forma de serviços sociais e politicas públicas.

Mas não é o que acontece. E aí os vinte centavos convertem-se num rastilho de pólvora altamente explosivo. Mais explosivo ainda no quadro dos gastos exorbitantes para a Copa das Confederações (2013), para a Copa do Mundo (2014) e para os Jogos Olímpicos (2016). Enquanto estádios e arenas, com sua respectiva infraestrutura, ganham o “Padrão Fifa” de qualidade, as escolas, postos de saúde, segurança pública e transportes coletivos seguem com o “padrão terceiro mundo”. A discrepância entre o alto valor dos impostos (um dos mais elevados do mundo), por um lado, e o abandono de serviços essenciais a população de baixa renda, por outro, associados ao alto índice de corrupção e impunidade, transforma-se num campo minado, onde qualquer passo em falso faz a bomba ir pelos ares.

Pelos ares vão também as expectativas de não poucos políticos, preocupados em pavimentar a estrada para as eleições de 2014. Todos querem tirar proveito das manifestações que se multiplicam por todo território nacional. Ocorre que a revolta dos vinte centavos não tem nome nem sigla, não tem líder nem organização rígida, não se coloca à direita nem à esquerda ou ao centro, não tem cor nem bandeira. Representa, antes, um mal-estar generalizado e marcadamente urbano que simplesmente quer dizer “não” a um gigante acostumado a dobrar os joelhos, seja diante do capital ou do império, seja diante do mercado ou das exigências da Fifa. Um “não” que questiona o Projeto de Poder e reclama um Projeto de Nação, voltado não para os privilégios pessoais, familiares e oligárquicos daqueles que ao longo da historia habitam os andares de cima da pirâmide, mas para as necessidades básicas dos que moram em sua base.

A bomba faz saltar, ainda, aquela concepção rançosa de que os jovens vivem no mundo da lua, na era virtual, não querem nada com nada. Eles são capazes, sim, de deixar a Internet, o facebook e as redes sociais em geral, para descer às ruas, ocupar as praças e fazer suas reivindicações. Pintam e mostram a cara, com máscaras que interpelam as nossas, e nos ajudam a desmascarar os discursos politicamente corretos, mas, no fundo, verdadeiras armadilhas e labirintos da injustiça e da desigualdade social. Ao ar livre e em alto som, revelam que a democracia representativa encontra-se enferma e necessita de uma urgente cirurgia, de reformas radicais e profundas. Os jovens nos dizem com toda a força, coragem e entusiasmo que seu “não” é na verdade um sim, pois querem participar da construção de um novo amanhã. Descem das arquibancadas para entrar em campo e participar do jogo.

Por: Pe. Alfredo J. Goncalves, cs