Fundador do MPL fala sobre o movimento, as jornadas de junho e o Tarifa Zero

Marcelo Pomar, que participou da fundação do Passe Livre, hoje é um dos principais quadros teóricos do movimento

 Do Coletivo Maria Tonha.

Aos 19 minutos e 23 segundos de “Impasse”, documentário sobre as lutas contra o aumento da tarifa em Florianópolis, há uma cena que tem lugar no Fórum Social Mundial de 2005, ocorrido em Porto Alegre. Nela, Marcelo Pomar aparece segurando um microfone e lendo uma carta de princípios de uma organização “apartidária, mas não anti-partidária”. Era a plenária de fundação do Movimento Passe Livre, o MPL.

Oito anos mais tarde, o MPL vive seu momento de maior fama. Isso graças ao seu papel indutor nos protestos contra o aumento da tarifa de transporte público em São Paulo, que posteriormente acabaram se desdobrando em protestos massivos por todo o Brasil.

Já Marcelo Pomar, hoje com 33 anos, graduado em História pela Udesc e professor de xadrez, não está mais no dia a dia do MPL por conta do atual trabalho – é assessor de uma parlamentar na Assembleia Legislativa de Santa Catariana – mas segue sendo um dos principais quadros teóricos do movimento. Já falou no TEDxFloripa, em 2011, em apresentação intitulada “Por uma vida sem catracas”. No último dia 10 de julho, discursou no plenário da Câmara, em Brasília, em que comentou os recentes protestos que acometeram o país, além também de ter discorrido sobre o projeto Tarifa Zero.

O coletivo Maria Tonha realizou uma longa entrevista com Marcelo para falar sobre a fundação do MPL, as Jornadas de Junho e o Tarifa Zero. O texto da entrevista foi dividido em duas partes. A primeira você acompanha abaixo.

Passe Livre como reivindicação histórica

“Na realidade, temos que voltar um pouco no tempo para entender como se chegou à fundação do MPL. O passe livre é uma reivindicação histórica do movimento estudantil. Desde pelo menos o final dos anos 80 no Rio de Janeiro há movimentos desse tipo, com inclusive uma movimentação histórica quando o Brizola já era governador do estado. Os estudantes conseguiram garantir esse direito no Rio, e até hoje esse direito existe, de forma meio capenga, por conta de liminares de empresas de ônibus – vira e mexe esse direito é contestado. Então, depois da abertura política de 1985, o passe livre passou a fazer parte do ideário do conjunto de reivindicações históricas do movimento estudantil brasileiro, em especial o secundarista. Nós não inventamos essa história.”

A campanha pelo Passe Livre em Florianópolis

“O que ocorre é que em 2000 nós tínhamos um grupo aqui em Florianópolis relativamente organizado que fazia parte de uma organização de juventude ligada ao PT chamada Juventude Revolução. Nós resolvemos em um grupo relativamente pequeno à época tocar uma campanha pelo passe livre aqui na cidade. Essa campanha acabou tomando corpo. À época nós tínhamos muito tempo livre, já que o movimento estudantil tem essa vantagem da a gente poder fazer bastante atividade. Nós mapeamos as escolas da cidade, fizemos um bom trabalho de base levando esse debate do passe livre, e realizamos uma série de manifestações de pequeno e médio porte entre os anos 2000 e 2004 que eu considero que criou um conjunto de condições subjetivas pra que em 2004 nós tivéssemos uma grande movimentação em Florianópolis, que ficou conhecida como a Revolta da Catraca. Essa revolta abrange os anos de 2004 e 2005 em que ocorreram dois movimentos grandiosos, movimentos de massa em Florianópolis, com cerca de 15 a 20 mil pessoas, o que para uma cidade de 400 mil habitantes é um negócio bastante significativo. Foram movimentos que por dois anos seguidos barraram o aumento das tarifas, em 2004 e 2005.

“Em 2004 nós já somos um grupo completamente distinto do grupo que começou essas movimentações em 2000. Isso porque em 2002 nós rompemos com a Juventude Revolução. Na verdade nós somos expulsos dela porque a gente começou a desenvolver uma tese de que a juventude deveria ser independente, quer dizer, deveria fazer suas próprias experiências e não deveria estar tutelada por uma organização adulta, fosse ela vinculada a um partido ou não. Em 2004 nós já éramos um grupo amplo, de frente única, que reunia várias organizações partidárias e muitos jovens independentes. E foram basicamente esses jovens independentes que acabaram tocando a coisa a partir de 2002 junto com esse grupo que foi expulso da Juventude Revolução.

“Não dá pra negar a importância da Juventude Revolução na gênese desse processo. Mas o que se tinha já em 2002, 2003, era um negócio muito mais amplo, que não tinha mais relação propriamente com a Juventude Revolução, e que era a campanha pelo passe livre, que reunia diversos jovens de grêmios, muitos deles sem nenhum tipo de vinculação a organização, a instituição ou partido político. Já era um processo genuíno, um processo diferente e singular.”

Revolta do Buzú

“Tudo isso consistiu em um conjunto de fatores subjetivos, quer dizer, ajudou a criar condições para que a gente pudesse ter um caldo de mobilização em Florianópolis para lutar por esse tema do transporte coletivo, inicialmente pelo passe livre, depois pela redução das tarifas. Também contribuiu para esse caldo subjetivo um grande movimento que aconteceu em agosto de 2003, em Salvador, que ficou conhecido como a Revolta do Buzú. Na época, circulava pelo Brasil um filme do cineasta argentino Carlos Prozac chamado Revolta do Buzú. Esse filme a gente passou nas escolas e nos serviu de grande estímulo. Ele demonstrava inclusive um perfil novo de juventude, mais desligado das entidades estudantis tradicionais, mas que estava disposto ao combate e em organização para luta por reivindicações. Nós nos identificamos muito com aquele movimento de Salvador. Então isso é um pouco do cenário desse caldo que nós tínhamos até 2004.”

As questões objetivas

“Havia também um conjunto de questões que considero objetivas e que estão ligadas à questão material do problema do transporte no Brasil. Uma questão estrutural mesmo. Nós tivemos de 1994 até 2004 um período de 10 anos de relativo controle inflacionário, de estabilidade da moeda, por conta do Plano Real. E, no entanto, em Florianópolis, as tarifas de ônibus aumentaram em um valor de quase 250% nesse período, ao passo que você não tem nenhuma categoria de trabalhador que recebeu qualquer tipo de aumento salarial similar a isso. Em Florianópolis, em especial, esses aumentos foram muito significativos. Outro agravante foi que, em 2003, criaram um sistema integrado de transportes que mudou radicalmente a forma pela qual as pessoas se deslocavam na cidade e isso causou muita revolta, muita indignação. No final de maio de 2004, a prefeita de Florianópolis, que à época era a Ângela Amim, do PP, decidiu dar um aumento no preço da passagem de 28%, um reajuste bastante alto. Então aquilo criou todas as condições para que nós tivéssemos uma onda muito forte de manifestação.”

Criar um movimento nacional

“Em 2004, em Florianópolis, explode essa manifestação grande que tem uma vitória expressiva que foi a redução dos preços das tarifas. E a gente começa a pensar o seguinte: ‘Olha, como é que a gente se conecta com outros jovens do Brasil que estão nessa luta? Que veem no que a gente fez aqui uma referência, e que tem mais ou menos proximidade política com o que nós estamos pensando?’. Era uma forma de pensar em organização propriamente. Até porque como nós não tínhamos mais esse vínculo com organizações estabelecidas, como a Juventude Revolução ou a Juventude do PT, nós achávamos que era necessário ter uma organização própria que fizesse um movimento social de característica urbana e que discutisse a questão do transporte coletivo, em especial a do passe livre. Daí surgiu a ideia de fundar o MPL. Uma organização que juntasse essas várias lutas do Brasil em torno do transporte, sobretudo em relação ao passe livre. Nós fizemos em novembro de 2004 um primeiro encontro. Esse encontro foi em Florianópolis e foi bastante bizarro. Deu uns grupos maoístas, deu tudo quanto é tipo de grupo. Foi num camping no norte da ilha, nos Ingleses. Foi uma experiência, e depois disso nós decidimos fazer um encontro nacional em Porto Alegre, durante o Fórum Social Mundial, em 2005. Fomos incentivados principalmente por Florianópolis por conta da experiência que nós tivemos, e por alguns contatos que nós tínhamos – e aí entra em particular uma outra organização que nos ajudou, sobretudo do ponto de vista de comunicação nacional, que foi o CMI (Centro de Mídia Independente). E por isso, nesse processo embrionário do MPL, o CMI deu uma ajuda principalmente no que diz respeito à comunicação entre esses grupos. Assim, em janeiro de 2005, é fundado oficialmente o Movimento Passe Livre nacional.

“O MPL nasce acho que em 11 capitais, o que para um grupo como o nosso era um grande feito, porque na realidade nós não tínhamos uma grande estrutura, não tínhamos nenhum partido por trás, nenhuma organização de peso, o próprio CMI não era uma organização de peso, embora tivesse relações internacionais. Então ele já nasce de certa forma forte. Em 2005 a gente volta a ter um movimento de luta, de jornadas importantes, barra de novo o aumento da tarifa em Florianópolis. E a gente começa a ver jornadas de luta em vários lugares do Brasil, que, de alguma forma, o MPL também incentivou.”

 Do Passe Livre Estudantil ao Tarifa Zero

“Desde fevereiro de 2011, eu contribuo de maneira mais distante com o MPL. Como fui prestar assessoria política para um mandato da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, tomei a decisão de não ter uma relação orgânica, cotidiana com o movimento, porque eu achava que isso de certa forma também não seria bom, não seria produtivo. Mas eu continuo contribuindo, sobretudo no que diz respeito à elaboração teórica e às questões políticas do movimento. Porque o movimento tem um momento de virada muito importante, há um período de refluxo nos movimentos de rua no MPL, sobretudo em 2008, 2009, que é combinado, e isso não aconteceu de maneira pensada, mas acabou sendo assim, com um período de aprofundamento da temática. O MPL para de discutir passe livre dos estudantes, ou a reivindicação pequena, menor, e começa a entender o contexto do direito à cidade. Quer dizer, a gente tem uma transição para o Tarifa Zero. Porque o passe livre é reivindicação historicamente ligada ao movimento estudantil. E o Tarifa Zero passa a ser o entendimento de que a cidade, por concentrar as grandes conquistas tecnológicas, científicas, culturais da humanidade, precisa ser então democratizada. E a democratização ao acesso à cidade passa necessariamente pela garantia do acesso e da chegada aos equipamentos públicos e privados que na cidade estão espalhados. Então nesse período nós ampliamos a concepção. Foi ali que tive a oportunidade de conhecer o Lúcio Gregori, que foi secretário de transportes da gestão da Erundina em São Paulo, e ele nos ajuda muito.”

Fonte: Brasil de Fato