[ENTREVISTA] “Os empresários já estão ganhando. Quem não vai ganhar é o povo”, Miguel Borba

Ana Rogéria/Rede Jubileu Sul Brasil.

Daqui a pouco menos de um mês, o Brasil sediará a Copa do Mundo. Se de um lado, empresários, banqueiros e patrocinadores em geral já comemoram a vitória; por outro lado há uma considerável parcela da população do país do futebol questionadora, que está inquieta, que foi excluída em seus direitos e que muito positivamente está consciente sobre o verdadeiro legado que o evento mundial irá deixar.

A rede Jubileu Sul Brasil inicia, nesta semana, uma série de entrevistas que aprofundam mais os questionamentos sobre gastos públicos, prioridades para o povo brasileiro, violação aos direitos humanos, o papel dos movimentos sociais, entre outros pontos relevantes para entender o atual panorama brasileiro dentro do contexto da Copa do Mundo.

Nesta primeira entrevista, o historiador Miguel Borba, do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), integrante da rede Jubileu Sul fala sobre o conteúdo da Cartilha Copa para que (m)? Quem vai pagar a conta?, lançada no final do mês passado no I Encontro dos Atingidos, em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Chama a atenção, de acordo com o historiador, o importante papel que os movimentos sociais terão frente ao oportunismo da direita e aos discursos prontos governistas, e à manipulação da mídia.

A Cartilha está sendo distribuída nacionalmente. Mas está disponível para baixar. Baixe aqui a cartilha.

Confira a entrevista.

A cartilha “Copa para Que (m)? – Quem vai pagar a conta?”, lançada recentemente no I Encontro dos Atingidos, dá a ideia de quanto a iniciativa privada vai lucrar com o megaevento. Poderia comentar mais sobre isso?

miguelMiguel Borba – Os empresários vão ganhar muito – já estão ganhando! – com a realização da Copa de 2014. Quem não vai ganhar é o povo. Mas na verdade a cartilha não é capaz de estimar exatamente quanto a chamada “iniciativa privada” ganhará, pois são muitas as formas. O que a cartilha denuncia muito bem é a transferência de recursos públicos para grandes empresas, nacionais e estrangeiras, via contratações não licitadas, como no RDC [Regime Diferenciado de Contratação), além outros mecanismos, como isenções fiscais, empréstimos e privatizações de bens e serviços públicos, como os aeroportos; que é um negócio bem lucrativo, pois geralmente o investimento na modernização continua a cargo do Estado.

Com uma dívida pública já bastante expressiva, o que significam esses gastos públicos dos governos com a Copa do Mundo em termos econômicos?

Miguel Borba – A dívida pública do Brasil é um escândalo! Quase metade do orçamento federal a cada ano vai diretamente para os “investidores” em títulos públicos, ou seja, para o mercado financeiro. Alguns chamam de “bolsa banqueiro”, com bastante razão, não é mesmo? A rede Jubileu Sul Brasil faz um trabalho muito importante de seguir denunciando – com cartilhas, filmes, pressões no Congresso e, especialmente, trabalho junto aos movimentos sociais – esse modelo de financiamento do Estado, pois ele é responsável pela escassez de recursos para as áreas de interesse da maioria dos trabalhadores, como saúde e educação pública de qualidade. A Copa do Mundo, com gastos oficias de R$ 30 bilhões (e sabemos que a conta é muito maior), é um corolário desse modelo que inverte por completo as prioridades no uso de recursos que são públicos.

Isenções fiscais, estado de exceção, violações a diversos direitos constitucionais brasileiros, são alguns dos pontos que constam na Cartilha. Diante deste panorama, qual o papel dos movimentos sociais organizados?

Miguel Borba – Diante desses desafios, os movimentos sociais têm um papel muito importante. Temos que seguir avançando no processo de resistência às violações de direitos, que aumentam muito no atual contexto de realização de megaeventos e megaempreendimentos industriais. Agora, é preciso enfrentar também um determinado tipo de “ativismo” de caráter bem elitista (por vezes racista e machista), como por exemplo acontece nessas campanhas “anticorrupção”, que são antipolíticas, antipopulares e pró-mercado, no fundo.

Em algumas cidades do país, como São Paulo e Brasília, tais movimentos da direita são mobilizados com assustadora rapidez, sempre que o capital acha necessário investir na disputa ideológica das ruas. O fato de escolherem o 7 de Setembro para fazer suas manifestações anuais mostra o quanto o Grito dos/as Excluídos/as conseguiu assustar a classe dominante. E aí, com todo mundo na rua as mensagens se confundem, a disputa ideológica fica confusa, embaralhada. O desafio dos movimentos sociais é não se diluir nas manifestações da direita; pelo contrário, temos que conseguir atrair a sociedade para as nossas pautas, nossos atos.

Disputar a mensagem política, neste contexto, é fundamental! Se a direita quer apenas canalizar a indignação do povo para os “políticos”, temos a obrigação de mostrar que os “políticos” são, em sua grande maioria, empresários e fazendeiros, ou seja, representantes do capital (com raras exceções um deputado tem apenas CPF; todos têm algum CNPJ registrado, alguma empresa a qual são ligados).cartilha-gastos-da-Copa-final-500

Na Copa das Confederações e com a aproximação do mundial, aconteceram – e continuam acontecendo – manifestações populares e massivas que questionam a realização da Copa. O senhor acredita que os patrocinadores esperavam por esse embate? Ou não tinham ideia de que haveria questionamentos e protestos?

Miguel Borba – Acredito que esperavam alguma indignação, mas não algo desse tamanho, como aconteceu durante a Copa das Confederações, em 2013. No entanto, não podemos perder de vista que muitas manifestações de diversos tipos já vêm ocorrendo no Brasil há anos. Tanto movimentos sociais, como sindicatos, partidos de esquerda, junto com frentes, fóruns, comitês poulares… Toda uma gama de mobilizações fruto do trabalho de várias organizações e militantes comprometidos, assim como do próprio avanço do capital, que gera por si só conflitos sociais (o que não significa que gera automaticamente organização ou resistência, daí a importância do trabalho político de diferentes formas de mobilização).

Mas no fundo, continuo achando que a classe dominante (“os patrocinadores” são a classe dominante, não é?) de fato não gosta de povo na rua e abusa da repressão, via de regra. Mas quando o povo se organiza eles contra-atacam e tentam encher a rua também, a seu favor. São capazes de pedir desculpas pela repressão inicial (impossível esquecer a hipocrisia do Arnaldo Jabor [comentarista do Jornal Nacional, da emissora Rede Globo] no ano passado) e em seguida perseguir ativamente o objetivo de pautar politicamente qualquer grande mobilização. Eles têm todos os meios para isso, a começar pelo monopólio capitalista dos meios de comunicação! Então temos que estar preparados, porque eles sempre vão agir combinando, de um lado, coerção e, de outro, consenso em torno a sua agenda política.

Então, o que representa substancialmente essa onda de protestos? Há como traçar um perfil desses e dessas indignadas que saem às ruas?

Miguel Borba – Acho que não é possível traçar um perfil, os/as indignados/as não são homogêneos, nem politicamente nem socialmente. Como eu disse, num momento de ativação dos setores populares e contra-ataque dos setores dominantes, todo mundo vai para a rua, cada um tentando levar suas pautas. Há uma intensa disputa por hegemonia. Se fossem todos iguais nas ruas, não haveria conflitos “internos” nas próprias manifestações – e temos visto que esses conflitos têm crescido, para além do já tradicional conflito com a polícia.

Quando vemos militantes de movimentos sociais, sindicatos e partidos de esquerda sendo atacados nas manifestações, física e verbalmente, fica nítido que há uma disputa pelo sentido político dos protestos – e que parte dos manifestantes é bem antidemocrática e intolerante também. Isso varia de lugar para lugar, é claro. Mas não podemos cair no discurso da [revista] Veja, por exemplo, que sempre busca definir “um tipo” de manifestante, uma forma de ativismo… Quando na verdade existe uma disputa bem grande na chamada sociedade civil, que é uma arena de lutas, não um ator social em si mesmo.

Para finalizar, a pergunta provocadora da cartilha: Para quem e para que é essa Copa, a quem se destina, a quem interessa?

Miguel Borba – Acho que a última página da cartilha responde muito bem à essa questão, quando também pergunta: “Copa pra quem?: Para a FIFA, para seus parceiros comerciais e para construtoras brasileiras, que nunca antes na história desse país lucraram tanto”.

A cartilha mostra que “a organização da Copa do Mundo no Brasil inverteu prioridades sociais, contribuiu para a violação de direitos, exclusão do povo brasileiro dos estádios e não promoveu melhorias para a classe trabalhadora, conforme as promessas que circundam a organização dos Mega Eventos há anos. Com a Copa convertendo-se em mais uma forma de grandes empresas lucrarem explorando os trabalhadores e recebendo bilhões de dinheiro público…”