[ARTIGO] O drible em tempos de futebol

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS

Cada vez que entro em contato com a peça de teatro Auto da compadecida, de Ariano Suassuna – seja em livro, no cinema ou no palco – me vem à mente a palavra drible ou driblar. Todo brasileiro sabe o que significa: “De posse da bola, ultrapassar o adversário, ludibriando-o por meio de movimentos corporais”, confirma o Aurélio. Trata-se, portanto, de uma metáfora extraída do futebol. Prevalece aqui a agilidade e a manha de superar o marcador, para avançar em direção à meta. Um jogo de corpo e de mente, marcado pela esperteza de adivinhar as idéias da defesa, antecipando com isso ataques imprevistos e imprevisíveis.

É justamente isso que nos mostra a peça tragicômica, em três autos, de Suassuna. Os pobres nordestinos (e não somente eles, evidentemente), como Chicó e João Grilo, especialmente este último, aparecem como verdadeiros dribladores diante dos obstáculos que vão se acumulando em seus caminhos duros e tortuosos. De tanto driblar a fome e a miséria do sertão, aprenderam a driblar as próprias pessoas: o dono da padaria e sua mulher (representantes do comércio), o padre e o bispo (autoridades da Igreja), o coronel e o cangaceiro (pólos opostos de um conflito secular entre o latifúndio e a revolta popular), o tenente e o delegado (símbolos do poder). Até mesmo depois de morto, na cena que simboliza o julgamento final, João Grilo continua driblando o Diabo, Jesus Cristo e a Compadecida (Nossa Senhora).

Na verdade, da mesma forma que grande parte do povo brasileiro, João Grilo e Chicó só se dobram diante da Virgem Maria e do Santo Padroeiro. Tanto que, como mostra a peça teatral, uma promessa feita jamais pode ser desfeita. Assim mesmo, no interlúdio da outra vida, João Grilo não deixa de utilizar seus truques para adquirir o favor da Compadecida e de buscar vantagem. E de volta à terra, depois de conseguir uma nova chance, segue na “profissão de driblador”, esbarrando desta vez com uma promessa do companheiro a Nossa Senhora, a qual deve ser cumprida à risca, fazendo-os retornar à pobreza de sempre.

Está em jogo a arte de sobreviver em meio a situações-limite que a terra ressequida impõe aos sertanejos e retirantes. Mais do que nunca, vê-se em ação a ginga, o drible ágil e flexível, o “jeitinho brasileiro” para enfrentar as adversidades da lei, da natureza e do poder secular. Na linguagem enviesada e dúbia, nos trejeitos e gestos do próprio corpo, na rapidez de encontrar as saídas mais impensadas, João Grilo e seu comparsa revelam-se mestres de uma sabedoria adquirida diante de uma ordem social que sempre os deixa à margem da história e da vida. Se a porta da frente lhes está cerrada, é preciso forçar a porta dos fundos. Daí a mentira ligeira, a artimanha de jogar com o sentido ambíguo das palavras, a perspicácia de provocar a briga entre os grandes para que, em meio à confusão, sobrem migalhas para menos favorecidos. Revelando a nudez da hipocrisia e das incongruências dos “senhores”, colocando-os uns contra os outros, os “escravos” vão catando pelo chão os restos que sobram.

A submissão às leis e às autoridades vem aconpanhada de uma ironia altamente corrosiva, a qual, ao mesmo tempo, esconde e revela uma insubmissão e rebeldia viscerais. Porém a oposição nunca é aberta e direta, mas dissimulada, subterrânea e sempre risonha. Camuflada e simultaneamente, tudo é objeto de respeito e de gozação, sem excluir o sagrado. A irreverência não poupa nenhuma instituição, como alguém que, sempre e provisoriamente a caminho, se insurge contra os muros de toda e qualquer fortaleza. Não se trata de um ataque frontal, como em Dom Quixote, de Cervantes, e sim de uma ação sorrateira de quem, ao dizer “sim senhor”, já descobriu uma forma de negar o que afirma. Faz lembrar as manifestações carnavalescas da Idade Média, analisadas pelas obras de Harvey Cox, A festa dos foliões, e de Georges Minois, História do riso e do escárnio. E faz lembrar, também, o carnaval e o futebol dos dias atuais.

O que leva o público nas arquibancadas a aplaudir freneticamente craques como Pelé, Garrincha, Ronaldinho e Neymar, entre tantos outros? Não será, antes de tudo, essa arte do drible? Arte de superar dificuldades por meio do movimento tortuoso e veloz, do engano puro e simples. Arte que mina pela raiz a possibilidade de defesa, pois conta não tanto com a força bruta, mas com a surpresa e a agilidade dos gestos e da mente. É a mesma sabedoria enviesada da piada de duplo sentido, que diz sem dizer, insinuando com meias palavras, que corrói mais com o riso e o chiste do que com as armas. O mesmo se aplica ao samba que desce do morro e desfila pelo asfalto, onde a festa irreverente não deixa de driblar o dia-a-dia, tão marcado pela pobreza, pela violência e pelo crime organizado.

A exemplo de Graciliano Ramos, de Raquel de Queiróz ou do poeta João Cabral de Melo Neto – respectivamente autores de Vidas Secas, O Quinze e Morte e Vida Severina – Ariano Suassuna põe a nu um cenário de extrema pobreza, agravado pela injustiça e pela desigualdade social, ambientado em Taperoá, estado da Paraíba. Diferentemente deles, porém, Auto da Compadecida apresenta o pobre sertanejo não tanto como uma vítima, e sim como um protagonista, um sujeito histórico que, a partir de um solo áspero e de uma teimosia que não se abate, procura meios de seguir vivendo. Ou melhor, driblando para viver – ou sobreviver!

O Autor coloca em cena uma sabedoria que não vem da escola, nem dos livros e tampouco da universidade. Vem das pedras e dos espinhos encontrados diariamente na caatinga, no sertão e no agreste. Parafraseando Guimarães Rosa, vem do Grande Sertão, hostil e inóspito, minado e selvagem, onde as Veredas só se abrem a pulso, à custa de muita luta e muito sofrimento. Sertão diante do qual é inútil opor uma resistência quixotesca ou homérica: só o drible, inteligente e esperto, é capaz de facilitar a difícil travessia. “Não há caminho, o caminho se faz caminhando”, diz o poeta. E quem muito caminha, aprende a depurar a bagagem e a alma. A leveza e a sagacidade no trato abrem mais horizontes do que a bala.

Nessa ambivalência de João Grilo e de Chicó, o sim pode se tornar não, e o não pode se converter em sim, de acordo com as circunstâncias e com as necessidades. A única maneira de sobreviver, de lograr um pedaço de pão para comer, é esquivar-se ao confronto com as autoridades e instituições constituídas, driblando-as com “causos e estórias” rápida e destramente construídos, como o são, por exemplo, os “repentes de rua”. Mentiras? Mais justo chamar de estratégia de sobrevivência, expressão que o próprio Suassuna coloca na boca da Compadecida, advogando em favor do Cangaceiro e do protagonista principal.

A ordem estabelecida favorece, legitima e sacraliza o poder e a força dos grandes. Para os pequenos, resta a esperteza dos golpes baixos, desde que aplicados com maestria. E isso é o que não falta nos dribles argumentativos e no jogo de xadrez de João Grilo e Chicó. Jogo tão elaborado e complexo que o leitor/espectador tem dificuldade de acompanhar o raciocínio de ambos. Tanta agilidade de corpo e de mente só pode nascer em meio a deserto estéril, que torna ágil e fecunda a inteligência.

Roma, Itália, 19 de maio de 2014