Lugo prefere recorrer a organismos internacionais a convocar protestos

Confira entrevista com o presidente deposto que, entre outras coisas, fala sobre suas esperanças de voltar ao Palácio de los López

Por Opera Mundi.

Sentado em uma pequena sala do País Solidário, partido membro da internacional socialista que funcionará como sede de reuniões semanais com os ministros de seu governo deposto, o paraguaio Fernando Lugo afirma que não está cansado de lutar. Sua destituição da Presidência do Paraguai, aprovada pelo Congresso nacional, e a posse do seu então vice-presidente Federico Franco já completaram quatro dias.

Insistindo na frase de que “na política, tudo é possível” para reafirmar suas esperanças de voltar ao Palácio de los López, sede da presidência paraguaia, Lugo diz, em entrevista exclusiva ao Opera Mundi, que não convocará manifestações massivas em Assunção, que recorrerá internacionalmente contra sua destituição e que sua desistência de participar da Cúpula do Mercosul não afetará os planos de resistência ao governo de Franco.

Opera Mundi – O senhor acredita ser possível reverter esta situação e voltar a ser presidente?

Fernando Lugo – No Paraguai tem uma frase muito comum na classe política: ‘na política, tudo é possível’, inclusive fazer um julgamento injusto, sem argumentos e destituir a um presidente sem ter as ferramentas jurídicas racionais. Se isso é possível, a outra coisa também é possível.

OM – Por qual caminho?

FL – Tem dois caminhos. Um é o jurídico, que neste momento está fechado, já que a corte ratificou a constitucionalidade do que foi decidido pelo Congresso. O outro, o político, é que o parlamento possa reverter suas decisões, o que é muito difícil, mas que, como se diz, não é impossível.

OM – O senhor está cansado de tudo isso?

FL – Não.

OM – Para que o parlamento volte atrás na decisão que tomou, não seriam importantes mais manifestações para que ele sinta que o senhor tem apoio da população? Pretende mobilizar mais as pessoas, convocar protestos?

FL – Tem uma equipe política que está trabalhando nisso neste momento. As manifestações estão sendo feitas nos departamentos. Neste momento, há [manifestações] em Misiones, Caazapá, Caaguazú. Amanhã haverá em San Pedro, Concepción. E não se descarta que eles decidam se é conveniente ou não vir a Assunção, em frente ao parlamento, para fazer escutar sua indignação com o que aconteceu na semana passada aqui no Paraguai.

OM – O senhor convocar pessoalmente, não?

FL – Eu estou acompanhando, mas isso é iniciativa deles, é cidadã, de exercícios de seus direitos, que são muito saudáveis para uma democracia.

OM – Pretente recorrer à OEA (Organização dos Estados Americanos) ou Haia?

FL – Sim, em sete minutos tenho uma reunião com a equipe jurídica. Vamos analisar isso. Neste momento estamos escutando o debate na OEA. Na sexta-feira, aconteceu uma coisa interessante: um meio de comunicação perguntou a Federico Franco quais presidentes o tinham felicitado quando ele assumiu a presidência. E ele ficou surpreso. Isso mostra que alguma coisa aconteceu aqui, não é como alguns meios locais querem dizer, que aqui não aconteceu nada, que tudo está normal, que a vida continua naturalmente. Aqui se rompeu a ordem constitucional, jurídica, democrática, com uma roupagem formal, legal.

OM – O senhor recebe ligações da presidente Dilma e do ex-presidente Lula?

FL – Sim, nos comunicamos hoje mesmo com o Marco Aurélio [Garcia, assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência], que é com quem mais estamos em contato. Naquela sexta, quando estavam na reunião da Rio +20, o presidente [uruguaio José “Pepe”] Mujica me ligou [e informou] que já estavam analisando a situação do Paraguai.

OM – O Lula não?

FL – Não conversei com Lula, mas sei que ele se manifestou contra o que aconteceu.

OM – A ausência na Cúpula do Mercosul não tira a força da resistência contra a destituição?

FL – De jeito nenhum. Isso reforça a resistência local, porque vou estar com as pessoas aqui. Além disso, eu disse com bastante clareza que não vou à Cúpula por três motivos: primeiro porque o Mercosul tem informação em primeira mão. Se eles querem que eu vá para dar um testemunho e contar o que aconteceu, eles já sabem através dos chanceleres que estiveram aqui nestes dias, como o Antonio Patriota, o [argentino] Héctor Timerman, o do Uruguai, o do Chile, de todos os países da Unasul. Eles têm análise e fotografia dos fatos porque visitaram os partidos políticos, foram ao Congresso nacional e falaram comigo também. […]Eles têm informação não só da semana passada, mas dos três anos e meio de governo. Em terceiro lugar, não quero que os presidentes do Mercosul considerem minha presença como uma pressão para suas decisões. Que possam decidir com liberdade e autonomia, e tratar o governo que se instalou no sábado com a consideração que realmente merece.

OM – Alguns brasiguaios dizem que o senhor fomentou a xenofobia dos sem-terra contra eles. O senhor apoiava os sem-terra contra brasiguaios? Hoje eles estiveram aqui e apoiaram o Federico Franco, o que o senhor tem a dizer sobre isso?

FL – Não, este presidente Fernando Lugo, com a assinatura de um acordo com o presidente Lula, foi quem reivindicou aos chamados brasiguaios, dando-lhes todas e absolutas garantias para que possam desenvolver seus trabalhos de agronegócio aqui no Paraguai e viver dignamente. Além disso, eles próprios dizem que não são brasiguaios, são paraguaios. Então mal poderiam estar reclamando que eu estive a favor dos carperos [camponeses sem-terra], este presidente não esteve contra ninguém, sempre estive a favor de todos, tentando buscar um consenso, soluções pacíficas, para que o país possa se desenvolver em harmonia. Eu considero que os brasiguaios deram uma grande contribuição ao desenvolvimento do país, assim como outros imigrantes, uma grande contribuição cultural. Por isso estou convencido de que eles são importantíssimos para o Paraguai.