Organizações fazem visita para averiguar situação das famílias vítimas de remoção em São José dos Campos

Por Rogéria Araujo | Comunicação Jubileu Sul

Há 13 anos, 400 famílias foram removidas de uma área em São José dos Campos, em São Paulo, para dar lugar às obras privadas em acordo com a Prefeitura local e investimento direto do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Envolvidas no projeto Habitar Brasil, as famílias hoje pedem reparação, pois passados tantos anos o conjunto São José II, para onde foram removidas, não oferece a infraestrutura prometida e concretizada no acordo entre as partes. Para averiguar a situação e fazer encaminhamentos, a rede Jubileu Sul Brasil e o Movimento de Favelas realizaram uma visita in loco com participação da Defensoria Pública do Município, Conectas Direitos Humanos e Centro de Informação sobre Empresas e Direitos Humanos e Centro Dandara de Promotoras Legais Populares.

O objetivo desta visita foi fazer um momento de escuta com as moradoras e tentar levar as demandas para conhecimento público para que medidas urgentes sejam tomadas. Situadas numa área isolada, as famílias contam apenas com uma Unidade Básica de Saúde, que funciona das 7h às 16h; uma creche que não atende a demanda das mães; segundo relatos das moradoras, são constantemente assaltados e são obrigados a permanecerem fechados; somente uma linha de ônibus faz a ligação com o centro da cidade e por muitas vezes para de circular.

“Nós fomos forçados a vir pra cá. A gente não sabia que ia ser assim. Disseram que ia ter tudo aqui pra gente. Mas ficamos isolados da cidade, não temos condições financeiras. Trabalho, quando a gente tem, fica longe. O transporte é difícil, fica longe, volto caminhando de madrugada”, falou uma moradora que, por motivos de segurança, a rede decidiu não revelar nomes.

Para além dos problemas de infraestrutura, a questão da violência faz vítimas constantes no local, resultado da ação de uma polícia despreparada e de facções que atuam no tráfico de drogas. Uma das mães presentes na visita relatou que seu filho de 15 anos foi morto com tiros e facadas pela polícia e que é sempre ameaçada. “Não importa o que aconteça comigo. Eu quero justiça”, disse. Ela não está só. Há mais casos semelhantes ao dela e o medo e o abalo psicológico são presentes no cotidiano dessas mulheres.

O bairro é tão discriminado que para conseguir emprego, as pessoas precisam usar endereços fictícios para obter vagas. “A minha patroa falou pra mim que se soubesse que morava aqui no São José II não teria me contratado. Somos vistos como marginais”, falou outra moradora.

Para o defensor público, Jairo Salvador de Sousa, que desde 2008 vem acompanhando o caso, a situação pede organização e destaca que por trás de todas essas consequências desastrosas e fatais para os/as moradores/as está o Estado.

“O que houve aqui foi que os interesses de grupos econômicos foram colocados acima do interesse das pessoas. Eles já sabiam o que iria acontecer. As famílias foram colocadas para ficarem isoladas mesmo. Temos várias realidades aqui. Para além da questão de infraestrutura que, claro, determina a falta de qualidade de vida das pessoas, tem mães que perderam filhos, casamentos acabaram, famílias foram destruídas. Antes de tudo, é preciso dizer, com relação a essas mortes, que quem puxou primeiro o gatilho foi o Estado. Quem matou os filhos de vocês foi a Prefeitura, foram esses interesses econômicos”, afirmou o defensor durante a reunião.

Encaminhamentos

Júlia Cortez e Júlia Neiva, do Conectas e Centro de Informação de Empresas e Direitos Humanos, sugeriram que as famílias reúnam todos os documentos referentes à propriedade da casa para averiguar a situação, pois muitos moradores pagam mensalmente uma taxa habitacional.

Cosme Vitor e Angela Aparecida, que acompanham a história das famílias, junto com o coletivo de moradores irão mobilizar mais famílias e marcar uma nova reunião para traçar estratégias e, assim, apresentar todas as denúncias à Defensoria Pública.

Para a rede Jubileu Sul Brasil é visível o poder do Estado e dos interesses econômicos na situação em que se encontram as famílias que moram hoje no Jardim São José II e das demais comunidades ameaçadas de remoção visitadas. Há uma clara segregação e higienização arquitetada na cidade de São José dos Campos, pois durante a visita foram relatados muitos outros casos de remoções em vias de acontecer como em Continha e Banhado, ambos para a construção da Via Cambuí.

“É urgente o fortalecimento da organização das famílias para enfrentar essa avalanche promovida pelos interesses econômicos que têm por objetivo varrer das áreas centrais da cidade comunidades inteiras obras estas que recebem financiamento de instituições, como é o caso do BID”, afirmou.

Wansetto destacou, ainda, a importância de fortalecer a luta das mães que sofrem as consequências da violência policial no Jardim São José II, para que militarização e a violação dos diretos das mulheres, crianças e dos jovens deixem de ser um fato recorrente.