Cumplicidade, Impunidade e Tolerância – Até Quando?

Por Magnólia Said – Educadora feminista, integrante da rede Jubileu Sul Brasil e Esplar

A leitura do Jornal O Povo de hoje – 25 de novembro – causou-me indignação e revolta. Na noite do dia 23, uma mulher adulta foi estuprada quando voltava pra casa pelas ruas do Benfica. Nesse mesmo dia, no município de Ocara, uma mulher foi vítima de tentativa de feminicídio ( o ex-companheiro desfechou sobre ela oito facadas). É bem provável que esses agressores fiquem impunes.

Gente, os dados da violência contra a mulher são estarrecedores! A cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. No Ceará, são 4 casos de violência por dia.Fortaleza é uma das cidades mais violentas do nordeste, em relação à mulher. São 4.800 mulheres mortas por ano no país. Em 2016 foram mais 290 mil inquéritos de violência doméstica e familiar contra a mulher instaurados, segundo a Advogada Geral da União. A Delegacia Especializada de Fortaleza registra 40 a 50 boletins de ocorrência por dia, chegando a 60 nos finais de semana. Relatório da Defensoria Pública constata que as mulheres levam, em média, de 1 a 5 anos para realizar a denúncia. Vários medos encobrem a atitude de denunciar, de não ficar calada, 73% da violência doméstica é presenciada pelas crianças. Daí elas crescem achando que é natural.

Se vocês ainda não tinham consciência disso, seja porque não se informam seja porque a vida “da outra” não interessa, as palavras a seguir, são especialmente para vocês: mulheres que pensam que a culpa é da vítima, que a violência acontece por que, de alguma forma, a mulher provoca; Para vocês homens que se dizem respeitadores das mulheres; se dizem aliados da luta das mulheres; que escrevem e opinam favoravelmente sobre a igualdade de gênero; que fazem discurso no dia da Mulher; que também participam das comemorações do 8 de março; que dão flores no dia da mulher, para suas mulheres, amantes, amigas, namoradas….

Pois bem, quero dizer para vocês que os principais agressores e assassinos de mulheres são: maridos, ex-maridos, amantes, ex-amantes, namorados, ex-namorados, companheiros, ex-companheiros, ou seja, aqueles que estão príximos às mulheres, têm ou tiveram relação afetiva com elas. A mulher nunca esquece uma violência, seja de que tipo for. Ela faz de conta, por vários motivos, mas não esquece. Nem 30 anos de análise são capazes de fazer uma mulher esquecer a violência do estupro. Ela carrega para o resto da vida. E isso se reflete nas relações que estabelece com filhas e filhos. Uma vez que numa sociedade movida pelo capital, o patriarcado e o machismo são convenientes e necessários, não adianta esperar pelo Estado.

Portanto quero desafiar vocês que estão na categoria daqueles que “se acham exceçao por não baterem na mulher.” Por favor, não sejam condescendentes com seus amigos e/ou pessoas próximas, no sentido de dizer que “ele não sabia o que estava fazendo”; ou “ele estava cheio de problemas”. Sabia Sim! Por que não bateu com a cabeça na parede? Por que não saiu de perto, ficou na rua até esfriar a cabeça? Quem ama não machuca. De forma alguma! Quem ama troca afagos, carinhos, solidariedades, cuidados, respeito.

Desafio vocês, meus amigos e conviventes “do bem”, os amigos dos meus amigos que também são “do bem” a, de fato, somarem conosco na luta contra a violência doméstica e familiar. Desafio vocês a rechaçarem aquelas pessoas que praticam violência contra mulher, a se afastarem delas. Digam publicamente que vocês não aceitam a violência contra a mulher. Digam publicamente que vocês não têm medo da igualdade de gênero; que vocês acham lindo quando uma mulher também brilha no espaço público; que vocês acham gostoso compartilhar as atividades domésticas; que vocês respeitam a liberdade das mulheres, porque é um direito a que todo ser humano tem.

Façam alguma coisa! O machismo mata e vai continuar matando, contando com o silêncio de vocês.