NOTA DE REPÚDIO DO FÓRUM POPULAR DE SEGURANÇA PÚBLICA ACERCA DA “CHACINA DE CAJAZEIRAS”

Nós, da Rede Jubileu Sul Brasil, apoiamos toda e qualquer providência que for tomada para evitar o extermínio da população jovem, negra e pobre. Também apresentamos nosso repúdio e indignação com mais uma chacina ocorrida na cidade de Fortaleza (CE), onde eventos como esses estão fazendo parte do cotidiano das pessoas. Abaixo, publicamos a nota do Fórum Popular de Segurança Pública do Ceará, assinado por alguns coletivos que fazem parte da rede Jubileu Sul Brasil.

NOTA DE REPÚDIO DO FÓRUM POPULAR DE SEGURANÇA PÚBLICA

ACERCA DA “CHACINA DE CAJAZEIRAS”

Nós, do Fórum Popular de Segurança Pública do Ceará, manifestamos nossa profunda indignação e revolta com a maior Chacina do Estado do Ceará, ocorrida na madrugada de hoje, 27 de janeiro de 2018, no bairro Cajazeiras, em Fortaleza. Expressamos nossa solidariedade às famílias das vítimas, desejando que encontrem forças para viver uma dor inexplicável em razão de uma ação atroz e injustificável. Infelizmente, vivemos, no estado do Ceará, a intensificação da violência letal, articulada a outras gravíssimas violações aos direitos humanos, configurando uma tragédia humanitária, há tempos denunciada por integrantes deste Fórum.

Portanto, a “Chacina de Cajazeiras” não se trata, em absoluto, de um caso isolado, pois vivemos, desde 2016, chacinas e microchacinas sistemáticas, realizadas por grupos armados que matam de maneira indiscriminada e cada vez mais covarde. Crianças, mulheres e jovens têm perdido suas vidas em razão de simplesmente morar em territórios estigmatizados pela pobreza e marcados por conflitos armados ou por se relacionar com pessoas envolvidas em uma “guerra de facções”. Meninas de 13 e 14 anos têm tido seus ossos quebrados, corpos mutilados e vidas ceifadas por serem consideradas “marmitas” de facções de pessoas de uma facção inimiga.

A chacina em questão foi mais um capítulo de um confronto que revela o advento de uma desumanidade sem precedente nas maneiras de fazer o crime e exercer o poder sobre a vida das pessoas. No dia de hoje, dedicado à Memória das Vítimas do Holocausto, vale lembrar uma máxima, esquecida pelo governo: “O que é feito não pode ser desfeito, mas podemos prevenir que aconteça novamente” (Anne Frank). A repetição das chacinas no Ceará ao longo dos últimos anos é um claro sinal deste esquecimento. Experimentamos uma profunda indiferença de um governo completamente incompetente e irresponsável no cuidado da vida das pessoas mais pobres, segmentos infantojuvenis, sobretudo negros e populações LGBT.

Enquanto pobres morrem aos milhares, 5.134 apenas somente em 2017, o ano mais violento da história do Ceará, o Governo do Estado, que até pouco tempo negava publicamente a existência de facções no estado, mantem sua “agenda positiva”, classificando esta chacina como “acontecimento isolado que ocorre em toda parte do mundo”. Tão terrível quanto as mortes cruéis das pessoas nas Cajazeiras é a indiferença com a vida de pessoas que, após morrerem, ainda precisarão provar quem são e que suas mortes são passíveis de comoção e luto.

Afinal, as forças de segurança estão investigando as vítimas, pois é praxe ver se não se trata de pessoas matáveis, conforme pressupõe a lógica que impera na gestão do governo estadual. Assim, chacinas se tornaram recorrentes e comuns no Ceará. Jovens bem armados e faccionados atuam hoje sem encontrar qualquer resistência, fazendo tudo o que querem e como querem, matando sempre que veem a necessidade de se auto-afirmar em um mundo que sempre os ignorou e esperou que morressem. Provavelmente irão morrer! Enquanto viverem vão matar porque aprenderam que suas vidas não valem nada e, portanto, não podem considerar que a do outro valha alguma coisa. Vencer a violência é também vencer a indiferença e se ocupar de resgatar os que matam e morrem, todos os dias. Por isso, neste momento é mais do que nunca preciso reunir os esforços dos movimentos organizados da sociedade em favor de uma mudança na orientação das políticas governamentais e do olhar cúmplice de setores da imprensa na naturalização da violência.

Não há mais espaço para um Estado que ora assume a lógica da guerra, agravando a situação, ora se omite ou utiliza de novas promessas e peças de propaganda para adiar o inadiável: um pacto social em torno de uma nova política de redução dos homicídios, sensível aos direitos humanos e atenta à complexidade dos acontecimentos. Convidamos e nos colocamos a disposição, restando definir apenas dia, hora e local…