Mulheres denunciam violência e falta de políticas públicas para imigrantes em SP

 

Patricia Ruth Prudence Torrez tem 34 anos de idade e 30 deles foram vividos no Brasil. Nasceu em Sucre, uma cidade do departamento de Chuquisaca, na Bolívia, e foi em São Paulo que construiu e constrói sua vida, suas relações e aspirações de uma sociedade mais justa, igualitária e acolhedora. Ela é advogada e coordenadora de um cursinho popular para imigrantes, como ela.

Com um português perfeito, pudera, e com sotaque revelador sobre sua origem, Patricia falou da experiência que tem sido participar das oficinas de Cartografia Social com outras mulheres imigrantes, em especial da última, no dia 31 de maio.

Na oficina, Patricia e as demais revelam sentimentos que surgem da relação delas com a cidade, de umas com as outras e da falta de oportunidades, das políticas públicas existentes em São Paulo para um acolhimento efetivo de quem chega.

“Tem sido um processo de desconstrução, de olhar para a nossa realidade em nosso território e verificar a falta de oportunidades, os desafios que as mulheres imigrantes têm em São Paulo, sendo que o idioma é o primeiro deles”, disse Patricia.

A advogada questiona como o imigrante pode ter acesso às políticas de moradia ou denunciar um caso de violência doméstica, por exemplo, se não possui o idioma ou em determinados casos sequer a documentação que legalize sua permanência no Brasil.

Esta é uma das realidades compartilhadas na oficina que conta com mulheres de diversos países.

“Aqui criamos uma rede de apoio também, de solidariedade. Vemos muita hostilidade no atendimento a imigrantes nos aparelhos públicos. A xenofobia resulta na falta de acesso a direitos universais”, explica Patricia, destacando a violência nas escolas e nos postos de saúde, lembrando que a comunidade boliviana ainda é uma das que mais sofre na capital paulista.

Para Cinthia Oliveira, coordenadora da Cartografia Social, as oficinas são um espaço importante para as mulheres imigrantes porque são espaços de reconstrução das identidades, de encontro das culturas, de saberes e de partilha das experiências. “É chocante ouvir as mulheres falarem, por exemplo, da violência a que seus filhos são submetidos na escola. Os filhos têm sofrido muito preconceito. Uma das mulheres falou que a filha foi proibida de falar espanhol em sala de aula e isso causa uma violência, um isolamento das crianças”.

Mas há coisas boas, destaca Cinthia. “Elas ficam maravilhadas com o SUS (Sistema Único de Saúde). Falam, claro, da demora no atendimento, mas aqui não precisam pagar para serem atendidas, diferentemente de seus países de origem”, conta a coordenadora do projeto, que em São Paulo já realizou quatro oficinas com as mulheres imigrantes.

No mesmo dia da oficina, algumas das mulheres participaram do Festival de Futsal de Lésbicas e Bissexuais e acompanharam a 16ª Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo, que denuncia a opressão que enfrentam diariamente.

As Oficinas de Cartografia Social fazem parte do calendário de ações do projeto “Nós, mulheres, na defesa e na luta por direitos”, que vem se dedicando a diferentes públicos (catadoras, imigrantes, indígenas, mulheres em situação de violência etc.) com o objetivo de fazer uma cartografia ou diagnóstico social da realidade que elas enfrentam em seus territórios. A realização desta oficina conta com a parceira da equipe de Base Warmis-Convergência das Culturas.

O Projeto “Nós, mulheres, na defesa e na luta por direitos” ocorre nos territórios de Porto Alegre, Belo Horizonte, Fortaleza, São Paulo e São José dos Campos e tem por objetivo realizar um ciclo de formação e articulação das mulheres nos territórios ao longo de um ano. O projeto é uma realização da rede Jubileu Sul Brasil com apoio do Instituto Irmãs da Santa Cruz, Adveniat, Cafod e DKA.

Sobre a Warmis

A Equipe Base Warmis que faz parte do Organismo Internacional Convergência das Culturas tem por missão facilitar e estimular o diálogo entre as culturas, denunciar e lutar contra toda forma de discriminação e todo tipo de violência através da promoção e a proteção dos direitos humanos, o apoio à integração social e comunitária, a promoção da intermulticulturalidade na vida social e a promoção da Metodologia da Não Violência Ativa, promovendo ações para orientar mudanças positivas nos indivíduos e na sociedade.