Burocracia, falta de informação e de uma rede de apoio impedem acolhida digna de imigrantes no Brasil

Rilienne Richard fala durante seminário na Missão Paz

Karla Maria | Rede Jubileu Sul Brasil

Rede Discutir os fluxos migratórios e a acolhida “oferecida” pelo Brasil também do ponto de vista teológico foi um dos objetivos da 5ª edição do Diálogos do CEMA – Migração e Acolhida, realizado durante a 33º Semana do Migrante com o tema “A vida é feita de encontros”. O evento aconteceu na Missão Paz, na região central de São Paulo.

A Missão Paz é um centro de acolhida e encaminhamento dos que chegam a São Paulo, das mais diversas origens e situações, sejam vítimas de desastres climáticos, crises econômicas, fugindo de perseguições políticas ou religiosas e solicitantes de refúgio. Os fluxos migratórios internacionais em direção ao Brasil aumentaram nos últimos anos. Estima-se que vivam no país cerca de 2 milhões de imigrantes. Segundo
dados do Ministério da Justiça, 9.552 pessoas, de 82 nacionalidades, tiveram sua condição de refugiadas reconhecidas até dezembro de 2016. Dentre os solicitantes, os maiores grupos são sírios e venezuelanos.

Riliene Richard faz parte desses números. Haitiana, ela é membro da União Social dos Imigrantes Haitianos (USIH) no Brasil, uma entidade que tem por objetivo oferecer serviço e orientação aos imigrantes haitianos que chegam a São Paulo.

“Cheguei aqui com visto e tive muito apoio da Missão Paz. O problema dos haitianos no Brasil é fazer o agendamento para ir à Polícia Federal, além do pagamento de uma taxa, e na USIH buscamos oferecer essas informações, especialmente às mulheres gestantes”, disse Riliene. Com o apoio da Rede Jubileu Sul Brasil, a USIH conta uma assistente social, Andrea Regina Bezerra, que acolhe e orienta os haitianos que chegam.

O problema de falta de informações sobre como e onde obter a documentação necessária para permanecer e viver com dignidade no Brasil foi um dos problemas apontados também por Letícia Carvalho, membro da Missão Paz. “Temos uma portaria problemática e defasada que não conta com a possibilidade de migrantes que estão em outros países a qualquer momento chegarem ao Brasil”, disse, referindo-se à portaria de regularização migratória dos haitianos, com data de abril, que restringe o visto humanitário aos imigrantes que entraram no Brasil antes desta data.

Dados da Polícia Federal indicam que 717 imigrantes do Haiti cruzaram a fronteira do Brasil com a Bolívia entre janeiro e maio de 2018. Em sua maioria, essas pessoas vêm do Chile, país que endureceu as regras de imigração e onde as condições climáticas não são agradáveis para muitos haitianos, acostumados a temperaturas mais altas.

Em uma roda de conversa com haitianos, na rodoviária de Corumbá, Letícia verificou que a única documentação que tinham era a notificação de saída que a Polícia Federal havia entregue a eles. “Ali começamos a explicar aos haitianos como pedir refúgio, e mais, fomos cozinhar, porque deparamos com a fome. Eles diziam que estavam há quatro dias sem comer”, contou Letícia durante o seminário na Missão Paz.

Depois de alimentarem os haitianos, com o apoio da Pastoral da Mobilidade Urbana e da Casa do Migrante da região, foram feitas orientações e encaminhamentos para solicitação de refúgio.

Acolher é “obrigação” cristã

O professor de ciências da Religião da PUC-SP, Fernando Altemeyer, também participou do seminário e falou sobre a acolhida aos imigrantes e refugiados do ponto de vista teológico, além de humano. “Acolher o estrangeiro é uma questão religiosa. Jesus não só acolheu como deu exemplo. Ele bebeu da água da samaritana, uma inimiga do povo judeu”, lembrou o professor.

Para ele cada cuidado dirigido aos mais vulneráveis, a quem está na prisão, passando fome ou em dificuldade é um cuidado que se faz ao próprio Cristo.

Ao lado de Altemeyer, o pastor Renato de Lima da Costa, da Igreja Batista da Vila Antonieta, na região do Aricanduva, falou da parceria firmada com a Missão Paz em oferecer curso de língua portuguesa aos imigrantes. As aulas começaram em março de 2016. Houve momentos de integração, como a campanha para a arrecadação de 500 bilhetes de metrô para os imigrantes.

A iniciativa da Igreja Batista foi primeira atividade ecumênica em 50 anos, na Vila Antonieta. “Não sei se por uma suspeita ao ecumenismo ou por um medo de perder nossa identidade religiosa. Tem sido uma experiência muito rica, de diálogo e encontro, e isso impactou demais na Igreja Batista”, disse o pastor, lembrando que Jesus Cristo era o homem do encontro. “A vida de Jesus foi marcada por encontros, marcada por diálogos, sempre de braços abertos sem medo para acolher […] Jesus também ensinou que atos de misericórdia valem mais que os muitos ritos, tradições e sacrifícios”, disse o pastor.

A Semana do Migrante é realizada em parceria com Cáritas Brasileira, a Missão Paz, CESEM, IMDH e CENTRO ZANMI, vem em sintonia com a campanha “Compartilhe a Viagem”, lançada pelo Papa Francisco, que convoca a Igreja a caminhar e a responder aos desafios atuais e urgentes quanto à acolhida de  refugiados e migrantes em todo o mundo.