Visualizando cenários da eleição presidencial de 2018

Por Marcos Arruda*

Entender uma situação histórica muito complexa, como a do Brasil hoje, não é tarefa fácil. Como fica o Brasil se ganhar Fernando Haddad ou Ciro Gomes? Que desafios deverão confrontar? E se vencer o candidato da extrema-direita, promovido pela grande mídia e por um público empolgado pela síndrome do ódio criado e alimentado contra Lula e o PT?

É possível que setores da extrema-direita se insurjam contra a vontade da maioria e articulem um golpe militar? Qual é o ponto nevrálgico inegociável para as direitas, que vai ser lançado sobre o novo Presidente como condição de governabilidade? Que medidas preventivas estariam ao alcance da população para defender a democracia eleitoral e representativa do nosso país?

Estas são algumas questões que examino neste artigo.

Bloco histórico do grande capital com seu extremismo neoliberal

Há duas interpretações do desafio mais urgente destas eleições: uma, a necessidade de um “choque de ordem”, apresentado pela grande mídia nos noticiários que qualificam a situação atual com a frase “está tudo um caos”. Focalizam a corrupção e a violência como as únicas faces da realidade do país, e as intervenções policiais e militares como a única forma de combate-las. A outra reconhece que a violência é, sim, parte da realidade atual, mas as desigualdades de renda, riqueza e acesso às condições de vida digna afetam com muito mais virulência a vida da maioria da população, e são fatores de violência. Políticas que contribuem para aprofundar as desigualdades não são denunciadas nem combatidas pela grande mídia. Tampouco os meios de informação levantam a questão crucial da natureza sistêmica das desigualdades: elas derivam estruturalmente do sistema do capital oligopólico globalizado. A dívida pública já excede os R$ 5 trilhões e suga anualmente uma grande parcela das despesas do orçamento público, garantindo ganhos usurários aos seus cerca de 10.000 credores, segundo o economista Marcio Pochmann. E continua não auditada. O fato de que os seis bilionários mais ricos detêm a mesma riqueza que a metade mais carente da população do país é um indicador indiscutível da barbárie característica do capitalismo brasileiro.

O projeto “Ponte para o Futuro” representa no Brasil a ofensiva global do grande capital visando instalar em todo o continente das Américas uma “revolução neoliberal”. Segundo o golpista Temer, a recusa da Presidenta Dilma de levar adiante este projeto foi a razão principal que levou ao impedimento dela. O governo ultra neoliberal resultante do golpe parlamentar de 2016 veio para garantir que o grande capital seja o principal beneficiário das suas reformas. No quadro das eleições atuais, o ex-capitão Jair Bolsonaro, o ex-governador Geraldo Alckmin e o banqueiro Henrique Meirelles são os principais representantes desses interesses. É mais que provável que a vitória eleitoral dos candidatos de centro-esquerda abra uma etapa de intensas pressões sobre eles para que levem adiante o rol de reformas neoliberais da economia, oferecendo em troca a garantia do respeito à governabilidade, uma espécie de “pax americana”. Em caso negativo, haverá sério risco de provocações, calúnias e ações voltadas para a geração de um clima de instabilidade, medo e caos – ou seja, um ambiente propício para um golpe militar ou qualquer outra forma de regime coercitivo.

A liderança de Lula e a ameaça do Bolsonão

A evolução do processo eleitoral indica algumas características muito particulares destas eleições:

– Nem a grande mídia golpista duvida que o candidato ‘natural’ do PT, o ex-Presidente Lula, se não fosse impedido pelas decisões infundadas e espúrias da Lava Jato, com a cumplicidade do Supremo Tribunal Federal (STF), ganharia as eleições, talvez até no primeiro turno. O respeito e a acolhida que dezenas de milhões de eleitores lhe dão revela o fato de que Lula continua sendo a liderança mais expressiva e influente deste país.

– O exército de advogados e juristas, que se aliaram ao Congresso  – o mais reacionário da nova República – e à Polícia Federal para investigar Lula e Dilma, não conseguiram apresentar provas efetivas de crime de nenhum dos dois. A decisão do juiz Moro, de condenar e prender Lula teve o cunho de perseguição política e permitiu que no Brasil e no exterior ele seja qualificado como “preso político”. Isto não impede a grande mídia, em particular os dois maiores grupos oligopólicos de informação, as Redes Globo e Bandeirantes, de fazerem um sistemático trabalho de desinformação, usando calúnias, meias verdades e falsas notícias para fazer o público crer que o PT é o maior, senão o único grande responsável pelas práticas de corrupção que vigoram entre políticos e grandes empresários.

– O fato de o PT ter tido as principais forças do golpe como aliadas ao longo dos seus mandatos é um dos fatores do seu grande desgaste atual. Mas o que gerou a polarização e a ascensão de um candidato de extrema direita à corrida eleitoral foi, sobretudo, a população estar completamente descrente do modo “tradicional” de fazer política, em que as instâncias dos Poderes Legislativo e Judiciário se converteram, ao longo de décadas, em grandes balcões de negócios e os ministérios, secretarias de governo e a direção de empresas estatais tornaram-se moedas de troca.  Este sistema de podres poderes – Estado privatizado -, falsamente chamado de democracia, tem que ser derrotado definitivamente, pois se trata de sistema político corruptor e corrompido. Ele tem sido responsável pelo fracasso do Estado de cumprir seu mandato constitucional, levando ao aprofundamento das desigualdades da renda, da riqueza e do bloqueio do bem viver. Todos os grandes partidos têm feito parte desta bandalha. Cabe ao PT (e ao PDT) fazer sua autocrítica e inaugurar uma nova forma de governança: a prática de governar com o povo!

– A grande burguesia não perdoa Lula por sua origem operária-camponesa. Ela, que também se beneficiou da gestão conciliatória dos governos do PT, escolheu trai-lo. Se, de um lado, o PT se omite de fazer autocrítica dos erros dos seus mandatos, de outro ele, como Fênix, se beneficia do extremismo daqueles que o perseguiram e tentaram excluí-lo da política institucional brasileira. O tratamento seletivo dado pelo esquema da Lava Jato e do STF para indiciar políticos do PT, deixando de lado ou mesmo arquivando processos de suspeitos de crime de outros partidos, ganhou a atenção das classes empobrecidas do Brasil, e da mídia internacional. E, contra a vontade dos seus inimigos, a figura de Lula cresceu e ganhou um poder simbólico de grande e planetária magnitude.

– A erosão da imagem de Lula, Dilma e do PT pela mídia golpista não logrou plenamente seu objetivo. Os índices de popularidade de Lula continuaram crescendo, sobretudo junto ao eleitorado de menor renda, mais diretamente beneficiado pelos programas sociais dos governos do PT. A este juntou-se gente que compõe as classes médias e parte expressiva da centro-esquerda. O candidato abertamente anti-democrático, Jair Bolsonaro, conseguiu ganhar um apoio surpreendente e, com Lula declarado inelegível pelo Supremo Tribunal Eleitoral, tem mantido a liderança nas pesquisas de opinião. O mesmo candidato JB é líder do índice de rejeição do eleitorado. Olhando atentamente percebemos que, se no início do ano ele visitava os quarteis do país e obtinha apoio crescente dos setores militares, a ação erosiva da mídia em relação ao PT, somada ao discurso extremista anti-petista de JB, empolgou amplos setores descrentes da política tradicional e foi gerando uma polarização de emoções que hoje se expressa no que podemos chamar de ‘onda de ódio’. Trabalhadores de baixo poder aquisitivo, mulheres, inclusive negras, amplos setores da classe média, deixaram-se empolgar pela indignação contra “a corrupção” e a violência, agora atribuídas aos governos petistas, e adotaram a linguagem do ódio contra o PT e contra Lula e Dilma. A grande mídia continuou calando sobre a natureza sistêmica da corrupção, escolhendo focalizar o PT como o grande culpado pela política recessiva encapada de “ajuste fiscal”, responsável pela crise econômica que assola o Brasil. Esta política, iniciada ainda no governo de Dilma, foi agravada de forma perversa e irresponsável pela quadrilha de políticos corruptos que se apoderou do Estado brasileiro com o golpe de 2016.

– O atentado a faca contra o candidato do PSL levanta sérias suspeitas. A quem beneficia? Primeiro, à candidatura dele próprio, que passa a ser tratado como vítima, e até como ‘herói’ (pelo jornalista Merval Pereira do Jornal O Globo e comentador da TV GloboNews). Segundo, à extrema-direita como bloco de interesses, cuja intenção de polarizar as eleições se expressa na retrógrada bandeira do anti-comunismo e na disseminação de um ódio visceral ao PT. A acusação infundada do vice do PSL, General Mourão, de que um petista seria o responsável pelo atentado, advertindo que ninguém se iluda, pois são as Forças Armadas as “profissionais da violência”, é prova contundente de que forças ligadas à candidatura JB visam gerar um clima de medo e insegurança, propício a uma intervenção militar. As falas de JB (antigas e atuais) também podem ser entendidas neste sentido e revelam a semelhança de JB com o agressivo presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte. Algumas falas de JB revelam sua opção nazi-fascista e golpista:

– “sou a favor de uma ditadura” (1993, discurso na Câmara Federal)

– “Voto não resolve nada, não muda nada. Este país só muda com… guerra civil.”

– “Sou favorável à tortura.” “Chico Lopes devia estar pendurado num pau-de-arara”.

– “Ganhando o governo matamos 30.000, começando pelo FHC”,

– “Eu fecharia o Congresso, sim. Daria um golpe no mesmo dia.” (1999, falas de JB em entrevista)

– “Vamos fuzilar esta petralhada aqui do Acre” (em campanha no Acre em 2018)…

– “Não posso falar pelos comandantes [militares]. Pelo que vejo nas ruas, não aceito resultado diferente da minha eleição” (29.9.18)

Em 25.9.18, as correntes de direita se agitaram com os resultados da pesquisa do IBOPE recém publicado. JB estagnou em 28% e Haddad já alcançou 22%. A rejeição de JB continua subindo, já alcançando 46% contra 30% de Haddad e 18% de Ciro; e o índice de mulheres que jamais votariam em JB alcançou 54%. A previsão do IBOPE para o segundo turno é 43% de votos para Haddad e 37% para JB, ou 46% para Ciro e 35% para JB.  O jurista Miguel Reale Jr, coordenador jurídico do golpe de 2016, quando ainda era do PSDB, convocou reunião para propor aos quatro candidatos da direita (a mídia usa o eufemismo “centro”, ou “centro-direita”), Marina, Meirelles, Amoedo e Dias, que desistam já das suas candidaturas e recomendem “voto útil” em G. Alckmin. Não deu certo. E a soma das intenções de votos destes quatro era de apenas 13%.

Antes de fechar este artigo, aparece um novo golpe, desta vez do STF, para reduzir a probabilidade de vitória de Haddad, interditando o direito de votar de 3,3 milhões de eleitores, a maioria do Nordeste, onde o candidato do PT tem a maior votação. A justificativa é que eles não fizeram o recadastramento biométrico. Que outras artimanhas ainda vão inventar? Não os deixemos impunes.

Envolvimento do império EUA na subversão da democracia

Atores velados da conspiração que levou ao golpe de 2016 e à situação caótica que vive a sociedade e o Estado brasileiro hoje são o governo e as megaempresas e bancos dos EUA. Eles estão reunidos numa entidade chamada AS/COA (“Americas Society/Council of the Americas”), fundada por David Rockefeller para influir na política da América Latina. Ela reúne representantes das maiores empresas e bancos transnacionais de base estadunidense. A mudança de estratégia intervencionista do império EUA vem da primeira década deste século. Os golpes do Haiti (2004), Honduras (2009) e Paraguai (2012), que retiraram da Presidência Jean-Bertrand Aristide, Manuel Zelaya e Fernando Lugo, respectivamente, por via judicial e não por golpe militar, já revelam um novo tipo de ação golpista para substituir presidentes eleitos por fantoches servis aos interesses do império EUA.

O golpe de 2016 no Brasil segue este novo modelo: em vez de guerra militar, guerra judicial. O filósofo Euclides Mance analisa em detalhe esta mudança de estratégia do império capitalista estadunidense no seu livro “O Golpe – BRICS, dólar e petróleo”.

Mance abre o livro com duas citações sobre o envolvimento dos EUA no golpe jurídico-publicitário de 2016. A primeira é do articulador global da organização Estudantes pela Liberdade (SFL, em inglês), Alexander McCobin, mostrando como a SFL, rebatizada como Estudantes pela Liberdade (EPL) no Brasil, iniciadora do MBL (Movimento Brasil Livre), e ativa em vários países do continente, atuou na mobilização das classes médias brasileiras visando a derrubada da Presidenta eleita e a privatização da Petrobrás.

A segunda abre com o título: “A Presidenta brasileira dos BRICS, próximo alvo de Washington.” Segue-se a citação: “A razão porque Washington quer livrar-se de Rousseff é clara. Como Presidenta ela é uma das cinco líderes dos BRICS que assinou a formação do Banco de Desenvolvimento dos BRICS com capitalização de US$100 bilhões e uma coalizão de divisas de reservas no valor de mais US$100 bilhões. Ela também apoia uma nova Divisa de Reservas Internacionais para suplementar e, eventualmente, substituir o dólar (como moeda de troca internacional). (…) O Brasil também está se distanciando do domínio anglo-americano da exploração do seu petróleo e gás.” F. William Edgdahl.

Estas e outras evidências de ação intervencionista de agentes do império EUA no Brasil levantam a necessidade de avaliarmos as prováveis posturas do império EUA no processo das eleições de 2018.

Artigo publicado no BrasilWire cita o jornalista James Brooke, que publicou no New York Times (em julho de 1993) o título “Um Soldado que virou Político Quer Devolver o Brasil ao Domínio Militar”.  Este ex-soldado é JB.  Documentos liberados pelo governo dos EUA mostravam que os militares brasileiros e o governo dos EUA tinham planos para realizar outro golpe caso as eleições presidenciais de 1989 no Brasil tivessem resultados negativos para os EUA. Nada impede que estejam em conluio agora para evitar a qualquer preço que vença um candidato que cancele os leilões e reponha o Pré-Sal nas mãos de uma Petrobrás plenamente estatal, reverta as vendas de refinarias e outras subsidiárias, impeça a privatização da Eletrobrás e a venda da Embraer à Boeing, defenda os minérios brasileiros, promova reforma tributária redistributiva e reforma da Seguridade Social, promova a auditoria e a renegociação da dívida pública, e imponha limites à remessa de lucros e dividendos.

Pesquisando cenário 

A continuar a tendência do momento, a vitória de Fernando Haddad no segundo turno dará ao PT a volta ao governo federal. Se houver uma reviravolta e o vencedor for JB, o Brasil estará entregue de novo aos militares de extrema-direita e uma era de trevas encobrirá outra vez o país.

Cenário 1 – Haddad e JB passam para o segundo turno. As direitas se dividem, a maioria delas decide passar seus votos para JB, uma minoria que rejeita JB migra seu voto para Haddad. Porém a maior parte dos eleitores de Ciro e Boulos, e uma parcela grande de eleitores de Marina e Alckmin migram seu voto para Haddad. Algo semelhante pode acontecer, caso Ciro se torne o candidato com melhor chance de vencer JB. A extrema-direita se inquieta com a provável vitória do PT (ou do PDT) no segundo turno e articula um possível golpe militar.

  1. O ambiente político nacional e global não é favorável a um golpe militar. Mas não é impossível que as direitas montem ações para justifica-lo. A facada no candidato JB no início de setembro pode ter sido uma dessas ações. Outras ações terroristas podem ser lançadas. Se elas vingarem, um golpe militar passaria de possível a provável. A “hipótese” do General Mourão, vice na chapa de JB, é que uma situação de anomia e anarquia justificaria uma ação unilateral do Exército para o ‘choque de ordem’.
  2. O setor liberal da entidade AS/COA se opõe ao golpe e insiste que é preciso manter a estratégia de “lawfare” (guerra jurídica), e negociar com quem beneficia a imagem democrática do Brasil e, ao mesmo tempo, garante a implementação das reformas neoliberais e a proteção dos interesses dos EUA no Brasil. Os “falcões” da política externa estadunidense apoiam a articulação de um golpe militar.
  3. A extrema direita do Brasil e os “falcões” preferem que o golpe ocorra o quanto antes (até mesmo antes do primeiro turno). Será muito difícil justificar o golpe depois de consumada a possível vitória eleitoral da centro-esquerda.

Cenário 2 – JB vence o primeiro turno. Os candidatos de centro-esquerda confluem para derrotar JB no segundo turno. A vaga anti-petista regozija. A extrema direita se sente encorajada para expressar sem pejo sua veia violenta, ainda que mantenha o discurso “democrático” e trabalhe para ganhar o controle do Estado pelo voto. Que iria significar a maioria dos votantes elegerem um antidemocrata e um general, ambos declaradamente favoráveis a um golpe militar, prontos para violarem a Constituição e proscreverem a democracia? JB tem insistido que a maioria do povo quer uma ditadura. Com o aval dos votos, ele estaria em condições de realizar seu pesadelo.

Cenário 3 – Haddad (ou Ciro)  ganha a eleição no segundo turno.

  • As elites econômicas, a grande mídia e os próceres do império EUA amargarão uma derrota histórica. A recuperação do PT na política nacional surpreende. As investigações policiais e as ações judiciais deverão prosseguir, alcançando o (agora ex-) presidente golpista Temer e as quadrilhas que ocuparam o governo federal desde o golpe de 2016.
  • JB, derrotado, pode juntar-se aos generais numa conspiração para realizar um golpe, seguindo o que disse o Gen. Mourão (“não aceitaremos uma vitória do PT”).
  • Caso percebam que um golpe militar é inviável neste momento, esperarão alguma ocasião propícia para articularem o golpe ou para se candidatarem outra vez. De fato, a candidatura de militares está se tornando mais frequente – são 71 candidatos a postos de governo em 2018, – e talvez não tarde a formação de uma “bancada militar” nas instâncias legislativas.
  • Para o novo Presidente, o maior desafio será a governabilidade. É urgente uma varredura do Poder Judiciário, removendo dele juízes, desembargadores, promotores, assim como membros do Ministério Público cujas decisões têm contrariado a legislação vigente e até mesmo a Constituição. Mesmo que o novo Presidente e sua equipe façam uma reconfiguração do Poder Judiciário, é provável que o Legislativo se oponha a mudanças profundas e queira impor ao novo Executivo o seguimento da agenda neoliberal. Contará para isto com o apoio da grande mídia, que continuará apresentando a corrupção como parte central da patologia da normalidade, e não um vício sistêmico, congruente com a malévola ética do capital.
  • Sem uma ação mobilizadora da população para viabilizar políticas saneadoras do desastre econômico e social dos últimos 4-5 anos, PT ou PDT e seus aliados não realizarão mudanças para além de políticas assistenciais.

Cenário 4 – JB ganha a Presidência. A menos que sua vitória seja questionada, ela significaria que o Brasil entrará numa era de domínio da extrema-direita, talvez semelhante à era brutal da ditadura de Pinochet (1973-1990), único caminho que as elites chilenas e o império EUA teriam para imporem um programa econômico de ultra-direita naquele país. Paulo Guedes, assessor econômico de JB, também foi formado pela Escola da Universidade de Chicago, e advoga uma reforma ultra-neoliberal orientada para “privatizar tudo” e converter o direito à vida em mera mercadoria.

a) JB poderia realizar suas promessas de “dar um golpe no dia seguinte”, “matar 30.000 para começar”, e impor um regime de terror que dure o tempo em que durar sua hegemonia. Este é o cenário mais improvável.

b) JB poderia ser enquadrado por líderes militares menos extremistas das Forças Armadas e os “pombos” do império EUA, e tentaria reformar as instituições usando a lei como sua arma principal. Suas contra-reformas econômicas – começando pela total privatização da Petrobrás, da Eletrobrás, dos dois maiores bancos estatais e dos aquíferos brasileiros – iriam exigir fortes alianças no Congresso e uma sociedade sufocada – seja por intimidação, seja por coerção violenta. Que desafios este cenário levanta para a democracia e a soberania da nação brasileira?

Que o novo governo aprenda a lição dos erros e acertos cometidos nos 13 anos de governo do PT, supere qualquer tendência populista, reunifique ética e política, e una-se às massas que o elegerem para um governo com autêntica participação popular, capaz de convencer até os adversários de que: (1) democracia é muito melhor e mais eficaz do que ditadura; (2) a democracia é um projeto holístico de poder, que não pode existir somente no campo eleitoral, mas tem que abranger o econômico, o político, o cultural e o ecológico; e (3) democracia é como natação: só  se aprende praticando.

Desafio maior 

A tendência mais provável aponta para a vitória do bloco da chamada “centro-esquerda”. Mas este bloco chegará ao poder ciente de que a sociedade está dividida e que existe uma rejeição muito forte da continuidade do velho modo de fazer política. É o que explica a polarização que se observa nestas eleições. Muita gente vai votar nos candidatos do PSL simplesmente porque vêem a necessidade de uma mudança radical no modo de fazer política. E nada entendem do que realmente importa para todos os agentes do poder político atual: a continuidade da “revolução ultra-neoliberal” iniciada pelo golpe de 2016. É ela o motivo primeiro de todas as manobras feitas para afastar Lula, o PT e seus aliados do poder do Estado. Eles são vistos como um estorvo para aquele projeto.

Quanto mais provável a vitória de Haddad e do PT, mais pressionado será para comprometer-se com aquela “revolução ultra-neoliberal”, se quiser garantir alguma governabilidade. Se não for possível derrotá-los, as direitas irão juntar-se a eles, como fizeram em 2002, com o claro objetivo de coopta-los, domesticá-los para que governem dentro das regras do jogo neoliberal, mesmo que tolerem “pitadas” de políticas sociais compensatórias. Isto ocorreu quando Lula foi eleito pela primeira vez, e o PT cedeu! O nome do projeto já em marcha é “Ponte para o Futuro”. Os agentes dessas pressões são os mesmos que deram o golpe em 2016, das direitas – empresários e banqueiros, agronegocistas, a grande mídia (tendo à frente as redes Globo e Bandeirantes), as FFAA e os evangélicos conservadores. Junto com eles, os agentes do império estadunidense: AS/COA, CIA, Departamento de Justiça de Washington DC e Departamento de Estado, cujo projeto neoliberal tem um horizonte global. Na AS/COA estão representados todos os principais grupos corporativos transnacionais de base estadunidense, os da informática, telemática e robótica, os do petróleo, automotores, químicos, farmacêuticos, de alimentação, das cadeias produtivas de armamentos. Eles querem manter abertas as veias da América Latina, manipulando as elites vendidas, sugando como vampiros as nossas riquezas e mantendo o continente numa condição pré-industrial.

Este conjunto de atores é conhecido como “Complexo Financeiro-Industrial-Militar”. Somemo-os com as elites conservadoras do Brasil e temos um “Bloco Histórico” que já iniciou, com o golpe de 2016, uma “revolução” ultra-neoliberal e está determinado a dar-lhe continuidade a qualquer preço. Haddad-Lula-PT-aliados irão aderir? Ou serão vítimas de alguma forma de coerção – a que melhor garanta aquela “revolução” – governo tutelado, assassinatos, ações terroristas em nome da esquerda, golpe militar. A forma não importa. Importa que aquela “revolução” prossiga e garanta um papel subordinado do gigante adormecido dentro da geopolítica planetária do capital globalizado, liderado pelo império EUA… Até que alguma megacatástrofe climática/ambiental, financeira, social ou civilizatória faça girar o caleidoscópio da História e nos introduza na Era do Bioceno. Nesta, os remanescentes da humanidade talvez afinal se dêem conta de que são apenas uma entre milhões de espécies de vida, cuja condição de vida deve ser construída em harmonia com a Natureza.

Nesse contexto, a quem irão servir os novos governantes? E como pode o povo brasileiro prevenir-se para evitar tamanho desastre político e social?

– Para evitar acusações de fraude eleitoral, seria desejável que os partidos que defendem a democracia, mais a OAB e outras entidades profissionais e religiosas, se unissem para convidar observadores do exterior para colaborarem na fiscalização das eleições de outubro.

– Para prevenir uma ação golpista, seria importante que todos os partidos engajados na defesa da democracia, convoquem suas bases e áreas de influência para realizar enchentes humanas nas ruas e praças em defesa dos seus direitos, de políticas e instituições que tornem a corrupção inviável, e das riquezas para o bem do Brasil.

– Que partidos e entidades da sociedade entrem em contato com comandantes e oficiais democratas das três armas visando mobilizá-los para a defesa da democracia representativa e da soberania do Brasil sobre seu território, suas riquezas e sua cultura.

– Mostras de força e resistência da população não faltam. A emergência das mulheres nas redes sociais organizando-se em torno do Ele Não, para fazer uma enchente humana nas ruas e praças do Brasil e de outros países do mundo, demonstram uma força, integridade e capacidade de união que inauguram uma nova era na política brasileira. A multiplicação dos meios alternativos de comunicação, rádios e TVs comunitárias mídias independentes e blogueiros progressistas, e a recuperação e fortalecimento da rede pública de rádio e TV. Eleito Presidente, Haddad (ou Ciro) não deve hesitar em convocar periodicamente TV e Rádio em rede nacional para dialogar com o povo; e usar outras instâncias de democracia direta, tais como plebiscitos e referendos para consultar o povo sobre assuntos de interesse nacional e estratégico. É urgente também romper o monopólio da informação exercido pela Rede Globo e pela família Marinho, monopólio este que é inconcebível pela legislação dos países da América do Norte e da Europa, que os podres poderes do Brasil tanto admiram.

Vencendo a eleição, Haddad vai ser duramente testado por um “choque de realidade”, que virá com as pressões para que compactue com os interesses do grande capital. Isto ocorreu em 2002, e o PT cedeu. Ocorreu de novo em 2013, e o PT cedeu. Terá ele a coragem de apoiar-se nos seus milhões de eleitores para não ceder mais? A única maneira de resistir será construindo pacientemente um novo pacto social centrado nos milhões que o elegeram. E isto implica num sistemático e maciço trabalho educativo e informativo junto à maioria trabalhadora. Seu programa de governo será alimentado pela visão estratégica da superação de todas as opressões. Quem garantirá a continuidade desta transição será o povo organizado e em processo de educação para a autogestão. Como primeiro passo, focalizar nos direitos e nas necessidades da maioria, no resgate do que há de melhor na Constituição, no desmonte legal e efetivo de tudo que o governo golpista fez recuar, e na adoção de políticas capazes de reerguer o Brasil da maioria num projeto não de futuro, mas sim de um novo presente. Será urgente também dialogar com a sociedade sobre uma Reforma Política que desmonte os sistemas da corrupção e da dívida, e viabilize novas regras de fazer Política (com P maiúsculo) que resgatem seu sentido original de arte de gerir o poder para o bem de todas e todos. Que não tarde, afinal, a coragem do novo Presidente para usar o poder que a Constituição lhe confere de punir oficiais das três forças armadas que transgridam suas obrigações constitucionais.

No plano subjetivo, Haddad terá que aprofundar seu conhecimento e sintonia com o povo trabalhador, inclusive a maioria absoluta das mulheres, os povos indígenas e quilombolas, as/os funcionários públicos concursados, a categoria docente, o corpo de artistas e de cientistas que ainda permanecem no Brasil. Essa sintonia irá temperar o coração de Haddad, para que fortaleça sua coragem de resistir às pressões e ameaças dos podres poderes, e enfrentar esses desafios, mesmo correndo riscos, sem afastar-se da mulher, do homem e da criança oprimidos do nosso rico Brasil.

Rio de Janeiro, 27.9.18

*Marcos Arruda, economista e educador do Instituto PACS (Políticas Alternativas para o Cone Sul), Rio de Janeiro, e associado ao Instituto Transnacional, Amsterdam, membro da Rede Jubileu Sul Brasil.