Las Venas Abiertas de America Latina y Caribe estan mucho más abiertas

Reflexiones desde la VI Asamblea Regional de Jubileo Sur/Americas, sob el cielo de Panamá    

Por Magnólia Said[1]

Quando falei para amigas e amigos que ia para a Guatemala, quem já havia estado lá disse que eu iria me deparar com um país belíssimo, com apenas coisas boas para olhar. Estando na Guatemala, me perguntei onde aquelas pessoas estiveram ou com quem conversaram, pois o que vi, escutei e senti ali, embora por pouco tempo, é verdade, foi um país capturado e assumido pelo crime organizado, pelas máfias dos narcotraficantes, que usam de uma violência extrema contra quem não lhe presta obediência ou não está ao seu dispor – até no aeroporto, enquanto esperava a hora da partida, escutei horrores de um jogador brasileiro que estava fugindo da cidade em que vivia há algum tempo para não ser assassinado por narcotraficantes). Um país marcado pelo desamparo em relação à proteção às mulheres contra a violência e pela delinquência juvenil (em Antígua, onde estivemos por um dia, vi nos muros de muitas ruas anúncios assim: “Vecinos contra la delincuencia”) e na Cidade da Guatemala vi, em alguns lugares públicos, jovens com armas à mostra, sem falar no uso acintoso de armas em lugares públicos por parte de seguranças privados.

Estar na Guatemala, para mim, foi como estar diante de um real inimaginável ou como estar no mundo de personagens da saga “Los Vingadores”[2], na luta pela proteção da população, em um universo em frangalhos. Um universo onde a cobiça, o individualismo e o desprezo pela vida do outro são os valores dominantes. Um lugar onde a vida vale um pouco mais de 50 quetzales e é tirada quando quiser.

A Guatemala, país mais populoso de América Central (16,9 milhões de habitantes) e a maior economia desse continente, com um PIB que alcançava em 2018 U$ 141 bilhões, figura como um dos países que mais concentram altos índices de violência machista. Em se tratando de América Latina e Caribe, ocupa o triste 3º lugar quando se trata de feminicídio. A cada 100 mil mulheres, há 2,6 ocorrências (levantamento da ONU sobre violência de gênero em 2017).

Na Guatemala, o sistema do capital tem se expressado das formas mais perversas. Isso é percebido na ausência de mobilidade na cidade, no controle do acesso aos bairros, na extorsão contra os pequenos comerciantes para proteção, no preço abusivo das passagens de ônibus, no conluio entre policiais e milicianos, na forma acintosa como a polícia se aproxima das pessoas e na incessante importunação sexual em relação às mulheres. Isso foi o que pude ver, perceber e escutar.

Daí me pergunto: como é possível achar natural, talvez sob a justificativa de um contexto de crise, jovens ostensivamente armados, prontos para matar, em troca de uma recompensa? Como é possível lidar naturalmente com o fato de mulheres estarem se suicidando cada vez mais, e levando junto seus filhos, por não terem um sistema de saúde e previdência que lhes acolha ou que acolha suas crianças? Da mesma forma que pessoas idosas ou com deficiência, por não terem o resguardo da seguridade social?

Como é possível permanecer indiferente às miseráveis condições de milhares de pessoas que vivem sem habitação digna, sem trabalho decente, sobrevivendo sob a pressão de um cotidiano capaz de lhes tirar sua vida e de sua família de diversas formas sem se angustiar? Como é possível permanecer impassível quando mulheres são vistas e tratadas como objeto de cama e mesa, como mercadoria, cujo preço a ser pago está diretamente relacionado à sua utilidade ou não, como se fosse uma máquina? Na Guatemala, tive a impressão que se vive com medo, e isso é muito ruim. O medo é um dos principais instrumentos de dominação dos regimes de extrema direita e fascistas (hoje a maioria da população vive assim no Brasil). Viver sob o medo imobiliza, e é exatamente isso que “eles” desejam.

Estar na Guatemala e conviver com guatemaltecos e com pessoas de países próximos que também vivem situações similares durante a Assembleia e fora dela me provocou uma mistura de sentimentos: tristeza, alegria, revolta, indignação, encantamento, descrença. Não sei fingir: o sentimento da esperança não esteve comigo. Todas essas sensações me fizeram sentir muito pequena diante de tantos desafios que a vida, a multiculturalidade, nos coloca e nos pede.

Eu pergunto: como podemos aceitar, com certa resignação, que 260 famílias estejam hoje vivendo em condições miseráveis, insalubres, em um lugar sem a mínima estrutura, sujeitas a chuva, frio, a violência de toda espécie (os pingos daquela chuva da noite caíram como facas em minha cabeça e em meus ombros, indo coração adentro)? Visitamos, conversamos com as pessoas, deixamos nossa solidariedade, mas o que levamos? O que veio depois? Será que esse coletivo que esteve na Assembleia não poderia tomar uma atitude, expressar solidariedade concreta àquelas famílias? O que está ali é a expressão real do discurso que fazemos em relação aos impactos da dívida na vida das pessoas. E o real não é o que está por vir, o real é o que já veio, que já está aqui, ao nosso lado, e às vezes não enxergamos. Creio que temos que ter clareza sobre isso.

Por isso mesmo, a emergência de uma campanha – seja regional, seja internacional – de apoio àquelas famílias, que venha lhes oferecer a possibilidade de viabilizar, por suas e nossas mãos, acesso a um lugar digno para viverem, à saúde e segurança alimentar, a trabalho dentro e fora dali. Rosário, uma senhora com quem conversei muito durante a visita e me emocionei pela sua garra e afetividade, e suas filhas reclamam de nós uma atitude. Afinal de contas, estamos em Jubileu porque temos um compromisso coletivo com a luta dos povos e com a justiça. Sozinhas, é provável que aquelas famílias venham a assistir a uma crescente fragmentação daquilo que as uniu para fazerem a ocupação. Podemos pensar e decidir sobre isso?

Estar no espaço da Assembleia e fora dela me provocou reflexões sobre a forte influência que a cultura tem sobre os povos e como às vezes acaba se solidificando, deixando de ser uma construção social que está relacionada a espaço e tempo. Lembrei de quando comecei a trabalhar com povos indígenas em meu Estado: o modo como as indígenas viam as questões de gênero e o feminismo, a partir de seus costumes, mitos, valores morais e crenças. Foi difícil fazê-las entender que a legislação brasileira, que define a violência doméstica e familiar como crime, deve ser aplicada também a indígenas agressores. Parafraseando Étienne de La Boétie em seu “Discurso sobre a Servidão Voluntária”, uma das mais fortes denúncias sobre o aprisionamento das mentes e corações, o que me pareceu em modos, atitudes, comportamento social foi uma “servidão voluntária”. A obrigação do servir, do sentir-se menos, obrigado a fazer e a não fazer. A resignação com o estado de ignorância, com a falta de pensamento crítico, de consciência de classe, que é o que nos leva à indignação, a nos mover diante das injustiças, seja nas relações de trabalho, seja nas relações interpessoais.

Aquela convivência me deixou dúvidas sobre a relação que os ancestrais, as avós e os avôs, estabelecem com as pessoas, que influência exercem sobre nós em relação a rumos, decisões, além das influências materiais, objetivas, já que estamos lidando com o campo da imaterialidade.

Durante a Assembleia, falamos muito sobre o capitalismo e suas consequências, tendo como foco a crise financeira e a dívida como sua consequência. Mas estou convencida de que, além das várias crises e de sua importância, uma vez que impactam a vida das pessoas, a crise que mais traz consequências para nossa vida é a crise de valores, de significados. É ela a responsável pelas bases em que está sendo construído nosso destino, o destino das próximas gerações. Por exemplo: o não reconhecimento do trabalho das mulheres e a injusta divisão sexual do trabalho ocorrem por não se aceitar que os cuidados com os filhos e a casa também é trabalho e tem um valor. E por que isso se dá? Exatamente porque, de um lado, o capital se utiliza do corpo da mulher como mercadoria barata e lucra com isso de diferentes formas, já que pelo trabalho de mãe, informal e instável, não recebe salário, estando, portanto, supostamente mais disponível. Por outro lado, isso ocorre em função do patriarcado, ou seja, o patriarcado como ideologia é gerador de um sistema de controle e propriedade que se expressa em um comportamento machista, que, por sua vez, gera violência doméstica. Essa lógica precisa ser rompida, mas ela só consegue se romper se assumirmos, dentro de nós mesmos, que é importante e necessário romper com a ideologia patriarcal. Assim será possível que esse entendimento passe a ser coletivo, pois, para mim, somente a perspectiva coletiva é capaz de produzir mudanças. Precisamos, então, conversar sobre isso. Será que nossos ancestrais, avôs e avós, não teriam algo a nos ensinar sobre assas questões?

Estar ali também me fez perceber a dificuldade que se tem para o exercício da prática revolucionária, já que todas e todos que estávamos na Assembleia nos identificamos, de alguma forma, como revolucionárias e revolucionários. Creio que a teoria – o pensamento – não pode estar desconectada da prática. Como posso contribuir para o processo educativo, libertador, dos grupos com os quais trabalho ou me relaciono se no meu cotidiano, nas relações que estabeleço, seja onde for, reproduzo práticas patriarcais de domínio da mente e do corpo? É difícil romper com a contradição? É sim. Mas não é impossível. Eu os convido a pensar sobre isso.

“hace falta ideas nuevas. Aporta lo que       sientes… pues la costumbre nos encierra”[3]

Gostei muito do sorriso e do carinho das mulheres com quem pude me relacionar no pouco tempo que tivemos. Adorei a presença de Norita, nosso símbolo de luta e resistência. Sua história de vida nos convida a ser absolutamente contrários a toda forma de injustiça, nos convida a não deixar que a história de resistência contra as ditaduras seja apagada e nos ensina, ainda, assim como Che nos ensinou: “hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás”. Ver Norita dançando, tomando cerveja, é inesquecível.

 

Foi muito prazeroso os momentos em que pudemos brindar, dançar, trocar energias, sentimentos, afetividades, sorrisos, brincadeiras sem censura alguma, em especial na “Cabana Uno”. Poder confirmar a importância de termos pessoas idosas (aquelas que já se foram ou que ainda estão aqui), os “Troncos Velhos”, como dizem os povos indígenas de meu Estado, como fontes onde vamos buscar sabedoria, energização e ensinamentos, sem que isso signifique um aprisionamento ao que eles e elas venham nos trazer, sem que isso signifique um aprisionamento de nossos próprios pensamentos.

“Hay que aprender a desaprender pues no es contradicción, es enmendarse”[4]

Conhecer outras experiências, modos de vida e culturas e escutar outras reflexões e abordagens nos ajuda a nos retirar do lugar de centro do mundo. É um convite a deixarmos de pensar que nossa vivência é sempre a mais importante, que nossas análises e propostas são as mais valiosas. Na verdade, “somos um mar de fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe…”[5]

Agradeço a todas e todas pelos prazeres sentidos e vividos. Amar e mudar as coisas me interessa mais.

 

[1]Advogada, educadora feminista, atual coordenadora do trabalho com mulheres indígenas do estado do Ceará, no Centro de Pesquisa e Assessoria – ESPLAR.

[2]“Os Vingadores”, filme americano, com continuações, cujo foco é defender a Terra de ameaças sem precedentes.

[3]Musica Ideas Nuevas – Cultura Profetica – banda de Puerto Rico

[4] Cultura Profética – la misma musica.

[5] Eduardo Galeano