Golpe de 64: a história que ainda precisa ser contada

Por Carlos Tautz*

Neste 1º de abril, os maiores agentes concentradores de renda do Brasil têm muitas razões para comemorar o golpe que civis e militares deram em 1964 no governo democrático de Goulart. Ao elencar a série de medidas que apontavam para alguma distribuição da riqueza no Brasil, Jango, no célebre Comício da Central, resumiu as mudanças estruturais que levariam à horizontalização no poder no País. Caiu, apesar de bem intencionado, porque não montou ao seu redor os dispositivos de segurança e de base econômica que lhe proporcionariam seguir adiante.

Toda essa história ainda está por ser contada. Precisamos conhecer nomes e sobrenomes daqueles que, fardados ou não, contribuíram para aprofundar um modelo econômico que sempre manteve o Brasil em um infeliz lugar entre as piores distribuições de renda do planeta. E que tem como resultados diários, até hoje, da carestia à violência.

É este o enquadramento que reclama atenção de autoridades e, principalmente, da sociedade civil brasileira. Abrir arquivos não trará à tona apenas os nomes dos responsáveis pelas bárbaras torturas que abateram muitos e muitas patriotas. Escancarar documentos oficiais mostrará quem, no governo, de fato cometeu crimes de lesa-pátria e se articulou com interesses empresariais para garantir uma economia baseada, até hoje, na extrema extração de mais-valia.

Entre os fatos da política e da economia política ainda estão por serem revelados, clama à consciência nacional saber:

Quais os nomes dos militares que fecharam o acordo com o governo dos EUA para permitir que os marines estacionassem na costa brasileira e estivessem prontos a intervir caso o golpe fracassasse em terra?

Quais foram os verdadeiros termos das sucessivas renegociações da dívida externa, comandadas por Delfim Neto, ex-Ministro de várias pastas na ditadura e hoje mentor de Lula para a área econômica? Por que a auditoria da dívida nunca foi feita, apesar de constar da Constitutição de 1988?

Onde estão os contratos assinados entre as ditaduras do Brasil e do Paraguai para construir Itaipu, que até hoje sangram o Tesouro brasileiro e extorquem a sociedade do país vizinho?

Qual foi o papel que tiveram os maiores grupos econômicos, e da Fiesp como sua entidade organizadora, na repressão política e o que eles ganharam dos governos da ditadura em troca do financiamento aos sistemas paralelos como a Operação Oban e os Doi-Codi?

A lista de eventos históricos que precisam ser finalmente contados é extensa e precisa ser tornada pública. A ética e a justiça históricas exigem que compreendamos a horrível inflexão econômica que houve no Brasil àquela altura e seus reflexos até os dias atuais. Para que punamos os responsáveis e evitemos reproduzi-la.

*Jornalista, coordenador do Instituto Mais Democracia – transparência e controle cidadão de governos e empresas.