Da economia à segurança: o que o Brasil perde ao rivalizar com a Argentina

Por Victor Ohana | Carta Capital

Entenda os riscos criados a partir das agressões de Jair Bolsonaro ao presidente eleito na Argentina, Alberto Fernández

O presidente eleito da Argentina Alberto Fernández ao lado de sua vice-presidente, Cristina Fernández de Kirchner, em 27 de outubro, em Buenos Aires | Foto Alejandro Pagni / AFP

Começavam a soprar, em agosto, os ventos favoráveis à vitória de Alberto Fernández nas eleições argentinas e o presidente Jair Bolsonaro já disparava sua munição contra o peronista. “Bandidos de esquerda voltam ao poder”, disse, em discurso na cidade de Parnaíba, no Piauí; “se essa esquerdalha voltar na Argentina, poderemos ter no Sul um novo estado de Roraima”, comentou em Pelotas, no Rio Grande do Sul. O fato: Fernández venceu em 27 de outubro e passa a comandar um país que integra o rol dos principais parceiros econômicos brasileiros. O que o Brasil perde com esta inimizade alimentada pelo Palácio do Planalto?

Segundo dados do Ministério da Economia, a Argentina foi o quarto país mais expressivo nos negócios externos do Brasil entre os meses de janeiro e outubro de 2019. Os hermanos ficaram atrás apenas de China, em primeiro lugar, Estados Unidos, em segundo, e Holanda, em terceiro, no ranking dos países que mais importaram do Brasil.

A Argentina foi destino de 4,4% das exportações brasileiras no período. Embora o valor movimentado tenha caído 38,43% em comparação com os mesmos meses de 2018, a cifra chegou a 8,17 bilhões de reais. Os principais produtos comprados pela Argentina são automóveis de passageiros (20% das exportações brasileiras ao país), partes e peças para veículos automóveis e tratores (8%), veículos de carga (4,1%), entre demais produtos como calçados, máquinas e aparelhos para uso agrícola e medicamentos.

Para a economista e integrante da coordenação do Instituto Jubileu Sul, Sandra Quintela, a questão econômica é o primeiro destaque da lista de riscos que o Brasil assume ao criar, voluntariamente, rivalidade com o presidente vizinho. Em sua análise, a Argentina pode redirecionar suas importações para outro país, como a China, que está de “sobreaviso” e é exportadora dos mesmos produtos que o Brasil comercializa. O impacto, à primeira vista, seria, portanto, a perda do protagonismo brasileiro em uma tradicional relação comercial com os argentinos.

Sandra avalia também que a desavença compromete o destino do Mercosul, bloco econômico integrado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Na visão dela, havia uma afinidade ideológica entre os presidentes Bolsonaro, Maurício Macri (Argentina) e Mario Abdo Benítez (Paraguai), enquanto Tabaré Vázquez (Uruguai) representava o único campo progressista no bloco.

Com a substituição de Macri por Fernández, a correlação de forças fica dividida pela metade. Está em processo, também, a entrada da Bolívia no bloco, um impacto imprevisível devido ao quadro recente de instabilidade no país. Além disso, é preciso notar, na visão da economista, que o tratamento dado por Bolsonaro à relação com a Argentina é reflexo do projeto que o presidente brasileiro tem para a América do Sul: a desestabilização política da região.

“O Mercosul já está muito fragilizado, não tem a mesma dinâmica, nem a mesma potência de posicionamento”, examina. “Essa relação entre os presidentes pode influenciar nas políticas de exportação, na priorização do mercado regional, nos acordos comerciais que facilitam a importação e exportação desses produtos na sub-região. Afinal, o Mercosul é o mercado comum do Sul.”

Para o doutor em Ciências Sociais e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Jaime César Coelho, a postura provocativa de Bolsonaro com a Argentina é inédita na história da integração comercial entre os países sulamericanos e a conduta agressiva constrange parceiros. O próprio candidato de centro-direita à presidência do Uruguai, Lacalle Pou, recusou o apoio que o presidente brasileiro manifestou a ele, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

“América Latina entrou nesse turbilhão entre EUA, China e Rússia. De maneira irresponsável, o atual ocupante do Palácio do Planalto nos coloca em situação de aumento de fragilidade”, avalia pesquisador.

Um segundo item, portanto, que o Brasil sacrifica com este comportamento diplomático transcende a esfera econômica da integração regional. Para o professor, a posicionamento coloca obstáculos em avanços de um projeto de cooperação construído a duras penas ao longo dos anos na região.

Ele considera que o acirramento da disputa geopolítica entre Estados Unidos, China e Rússia eleva as tensões políticas em diferentes localidades do mundo e especialmente na América Latina. Adotar, portanto, um conflito artificial com parceiros estratégicos alimenta um clima “perigoso” para uma região já instável por estes conflitos. Os impactos desta conduta ainda é imprevisível, mas preocupante, para o pesquisador.

“Estamos vivendo em um mundo perigoso, não é um mundo de dez anos atrás. As grandes potências acirraram o processo competitivo e é evidente que a América Latina entrou nesse turbilhão entre Estados Unidos, China e Rússia. Este jogo está sendo jogado aqui e, de maneira irresponsável, o atual ocupante do Palácio do Planalto nos coloca em situação de aumento de fragilidade diante de nossos parceiros”, avalia.

Um terceiro ponto elencado pelo professor diz respeito à segurança nacional. Ele lembra que, quando o Brasil e a Argentina passaram por regimes militares, apesar de haver convergência dos dois países em relação à Guerra Fria, não houve um desenvolvimento em conjunto de um projeto em termos de segurança. Segundo o pesquisador, nesta época, os militares argentinos e brasileiros desenvolviam projetos próprios, sem perspectiva de alinhamento, o que gerava um clima de competição permanente.

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