Mulheres de Fortaleza “constróem” o próprio território

Por Juliana Araújo e Karla Maria*

Traçar o próprio território e a partir dele, a vida. Esse foi o caminho percorrido pelo Grupo de Mulheres do Jangurussu, moradoras do Conjunto Novo Perimetral, na periferia de Fortaleza (CE), durante a Oficina Cartografia Social no Território, realizada no dia 26, na Associação Comunitária Dom Aloísio Lorscheider, como parte do projeto “Nós, mulheres na defesa e na luta por direitos”.

Aquele foi um sábado só de mulheres, de troca de experiências, de partilha das realidades e problemas, dos sonhos. “Achei maravilhoso. Foi muito importante ter um momento só de mulheres. Mulheres que a gente conhecia e que a gente nunca viu. Precisamos ter mais momentos assim”, disse Josicleide Ferreira.

Josicleide, a Kekeu, nunca tinha participado de uma oficina de cartografia e achou interessante a dinâmica de construir com suas próprias mãos o bairro em que vive. “Eu não sabia o que era cartografia social e foi muito bom, porque nós pudemos ver o espaço, cada canto, onde está a policlínica…”.

A policlínica é um dos aparelhos públicos presentes na comunidade, conhecida popularmente como Gereba, um espaço que carece se serviços públicos e o tráfico de drogas dita as regras. “Ali é o epicentro do tráfico de drogas entre as comunidades Babilônia e Gereba, e é nessa realidade que essas mulheres vivem, cuidam de seus filhos, se organizam para conquistar melhorias”, disse Cinthia Oliveira Abreu, coordenadora do projeto.

A Cartografia Social, o levantamento daquilo que o bairro dispõe de serviços, residências e lazer, foi feita em tecido, pelas mãos das mulheres mais acostumadas a pegar no pesado do que a traçar sonhos em cores. E ali, no tecido, foram apontados também alguns dos problemas da comunidade. Segundo Cinthia, o Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará deve chamar as mulheres que participaram da oficina para apresentar a cartografia social que construíram para a comunidade acadêmica, ou seja, vão apresentar o diagnóstico da comunidade, a partir da realidade de suas vidas.

“Essa foi uma experiência muito boa. Não conhecia isso (cartografia) e achei muito importante a gente identificar nosso espaço, conhecer gente de fora e crescer também”, disse Ana Célia da Silva, chamada carinhosamente pelas amigas de Diana.

Mas Diana gostou mesmo é de colocar a mão na massa. “Achei legal a cartografia. Foi algo novo e bom. Fiz a rua, as nossas casas, o rio. Ver tudo pronto foi muito lindo”, disse a cearense que também adorou a ginástica. “Pudemos nos esticar bastante. Dançamos, trocamos palavras, foi maravilhoso”, concluiu.

Para além de falar dos problemas da comunidade, as mulheres superaram o desafio de dividirem seu tempo de cuidar dos filhos, da casa, da rotina doméstica de um sábado de trabalhadoras, para construírem momentos de atividades que alimentem suas próprias vidas de modo mais lúdico.

A oficina reservou momentos para alimentar os sonhos, as amizades, a autoestima. “Muitas delas nunca param para pensar em si mesmas, em seus sentimentos, desejos. Então aqui na oficina, a partir do território que recriaram com suas mãos, elas “recriam” também sua autoestima, se empoderaram de si mesmas”, avaliou Cinthia.

Já para Raquel Lima, participar da oficina foi importante porque ela pôde tirar um dia só pra ela. “Tirei um dia só para mim. Eu não sabia o que era cartografia social e achei que não era capaz de fazer uma casinha com pedaços de retalho e eu consegui. Voltei ao meu tempo de criança e ali passaram muitas coisas na minha cabeça, como a gente pode ser feliz, os valores da vida e trabalhar em equipe com outras mulheres, cada uma com sua opinião e seus valores. Vou guardar esse dia para o resto da minha vida”, disse emocionada.

O Projeto “Nós, mulheres, na defesa e na luta por direitos”, que ocorre nos territórios de Porto Alegre, Belo Horizonte, Fortaleza, São Paulo e São José dos Campos e tem por objetivo realizar um ciclo de formação e articulação das mulheres nos territórios ao longo de um ano. O projeto é uma realização da rede Jubileu Sul Brasil com apoio do Instituto Irmãs da Santa Cruz, Adveniat, Cafod e DKA.

Mais fotos da Oficina. Arquivo de Cinthia Oliveira Abreu.

*Juliana Araújo é administradora, membro do Grupo de Mulheres do Jangurussu e do Movimento Círculos Popilares
Karla Maria é jornalista, assessora de comunicação da Rede Jubileu Sul Brasil

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