Jubileu Sul Américas

O Jubileu Sul/Américas (JS/A) é uma rede que agrupa organizações e movimentos sociais, ecumênicos, políticos, ecológicos e de direitos humanos que trabalham em gerar e desenvolver um movimento regional e global com base no Sul,, que lute para se libertar da dominação exercida pelo sistema ilegítimo de endividamento e suas consequências sobre a vida de milhões de pessoas.

Com raízes nos movimentos de resistência à dívida que cresceram durante os anos 80, o Jubileu Sul se constituiu formalmente na I Cúpula Sul-Sul, realizada na África do Sul em novembro de 1999. Emergiu no seio das campanhas mundiais “Jubileu 2000” que, sem confessar nenhuma religiosidade em particular, assimilavam a noção judaica-cristã de um ano jubilar, quando as dívidas eram canceladas e as pessoas escravizadas eram libertadas para impulsionar justiça e um “novo começo” para os países endividados do Sul.

Nos inspiramos nas numerosas formas de resistência pelas quais a maioria da população mundial tenta conseguir e defender seus direitos humanos fundamentais e coletivos para ter uma vida digna em harmonia com a natureza.

Priorizamos a resistência anti-imperialista, anti-patriarcal, anti-capitalista, anti-extrativista, contra a militarização e contra a criminalização dos protestos sociais, e em total oposição ao processo de mercantilização da vida em todas suas manifestações.

Expressamos um entendimento comum do conceito ‘Sul’ que reflete critérios políticos e ideológicos além de geográficos e abrange os oprimidos e excluídos em todo o mundo, reconhecendo a existência de setores do ‘Norte’ em meio do ‘Sul’, bem como de maneira inversa. Assim buscamos fortalecer alianças com todas aquelas pessoas, organizações e movimentos com quem compartilhamos a utopia de um mundo solidário, sustentável e de paz.

Nossa missão

– Confrontar  as raízes históricas da dívida e suas causas estruturais.

– Promover alternativas duradouras de justiça econômica, social e ecológica

– Desafiar e mudar o discurso dominante sobre a dívida até o reconhecimento de sua ilegitimidade para dar força ao movimento coletivo e global do Sul contra a dívida.

– Sensibilizar e afiançar um consenso popular sobre os custos humanos e a ilegitimidade da dívida, dentro de e entre os movimentos sociais e políticos dos países do Sul.

– Aportar a construção da noção de povos credores do Sul de dívidas históricas, sociais, ecológicas, climáticas, culturais, financeiras e de gêneros que devem ser reparadas.

-Apoiar e desenvolver plataformas, agendas e campanhas que incentivem a luta contra a dívida externa e a dominação que exerce a nível de cada povo e coordenada globalmente.

Nossa perspectiva sobre a dívida

A dívida externa dos países do Sul é ilegítima e imoral. Foi paga com aumento várias vezes. De fato, um exame cuidadoso das origens, desenvolvimento, efeitos e consequências desta dívida não pode nos levar a nenhuma conclusão diferente. Por isso, rechaçamos o saque contínuo do Sul perpetrado por meio do serviço de uma suposta dívida que se deve.

A dívida externa é profundamente ilegítima, injusta e insustentável ética, jurídica e politicamente. Foi construída sem nenhum tipo de consulta à sociedade e dora dos marcos legais vigentes, favorecendo só as elites e prejudicando a maioria da população.

Os povos e os países do Sul são, na verdade, credores de uma enorme dívida histórica, social e ecológica. Esta dívida tem que ser paga e reparada para que seja possível um “novo começo”. No espírito do Jubileu, exigimos a restituição do que nos foi tirado injustamente e a reparação do dano perpetrado.

Denunciamos energicamente a concentração crescente de riqueza, poder e recursos na economia mundial como causa essencial do aumento da violência, pobreza e do ‘endividamento’ do Sul. Não se pode eliminar a pobreza extrema sem que se elimine a riqueza extrema. Portanto, exigimos a erradicação da riqueza extrema e do sistema vicioso que gera tais desigualdades. Nesse contexto, rechaçamos a cobrança e o pagamento perpétuo da dívida externa por ser uma questão de vida ou morte para as milhões de pessoas que são exploradas e excluídas em nossas sociedades.

A acumulação da dívida externa nos países do Sul é produto da crise desse mesmo sistema e é utilizada para perpetuar o saque e dominação de nossas nações, muitas vezes coma aquiescência e colaboração ativa de nossas elites locais.

O sistema econômico global neoliberal é destrutivo e genocida em seu funcionamento e feitos. As mulheres sofrem desproporcionadamente suas consequências, assim como as crianças, os idoso e o ambiente. Uma solução duradoura para o ‘problema da dívida’ não pode ser encontrada pelas mesmas instituições e sistema responsáveis por sua criação. Esse sistema deve ser mudado e pode ser mudado.

No processo de enfrentar o ‘problema da dívida’ e mudar o sistema econômico global neoliberal, devemos continuar desenvolvendo uma compreensão cada vez maior dos vínculos entre a dívida e outras problemáticas conexas, tais como o comércio, as finanças, o investimento, os padrões de consumo, a segurança/soberania alimentar, a depredação ambiental e diversas formas de intervenção e repressão militar, antidemocrática e neocolonialista.

Muitos grupos e movimentos da classe trabalhadora e de povos empobrecidos e excluídos, assim como organizações, instituições e formações políticas, tanto no Sul como no Norte, estão comprometidos de diferentes maneiras na luta para confrontar  e transformar este sistema de dominação e devemos nos unir a eles. Como Jubileu Sul somaremos nossas vozes e apoio para fortalecer e formar alianças e coalizões enraizadas nas lutas históricas contra toda forma de opressão, no marco e tradição das lutas anti-imperialistas.

A resistência à dominação sustentada em função da dívida nos une como organizações e movimentos sociais em todo o Sul e nos mune de uma oportunidade histórica para no organizar como parte de um movimento mais amplo. Como Jubileu Sul, nascemos e estamos enraizados na África, Ásia e Pacífico, América Latina e Caribe, mas nos estendemos a todos os que fazem parte deste Sul histórico, político e ético, com a convicção de que NÃO DEVEMOS, NÃO PAGAMOS! Os povos do Sul são os verdadeiro credores!